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por Joêzer Mendonça
Em meados dos anos 1960, o debate cultural-ideológico da hora dividia os músicos brasileiros em dois grupos: de um lado, a turma das jovens tardes de domingo, cujas canções falavam de romances e aventuras despreocupadas. De outro lado, estava o grupo que frequentava festivais de música popular. Suas canções preferidas criticavam o governo militar e incentivavam a resistência política. Enquanto o primeiro grupo introduzia a guitarra elétrica na música feita no Brasil, o segundo fazia uma "Passeata contra a guitarra elétrica" nas ruas do Rio. Os primeiros não ignoravam o golpe militar (chamado à época de "revolução"), mas preferiam cantar sobre bailinhos e carrões, e se estivessem aquecidos no inverno, então que tudo mais fosse pro inferno. O segundo grupo protestava contra o regime autoritário imposto ao país e anunciava que quem sabe faz a hora e não espera acontecer. Em conjunto com a forte crítica anti-imperialista, este grupo recusava a cultura anglo-saxã e valorizava a cultura popular nacional. Declaravam-se engajados, em oposição ao primeiro grupo, tachado de alienado. Os "alienados" bebiam na fonte do rock’n’roll norte-americano mais comportado (comportado para os cantores e a crítica, pois para os pais, avós e xerifes qualquer guitarra e cabelo comprido era uma afronta). Os "engajados" empunhavam violões e pandeiros e adotavam o baião e o samba. As igrejas cristãs mais intelectualizadas transferiram esse debate para o domínio da música sacra. Começou-se a compor em língua nativa, isto é, no idioma musical brasileiro. Cristãos mais politizados passavam a combater o bom combate em duas frentes: a política e o evangelismo. Sua música, ao mesmo tempo em que protestava contra a passividade política, também criticava a letargia espiritual. Queixavam-se, ainda, da ênfase num repertório baseado em hinos e canções de origem estrangeira, o que seria, para aqueles compositores, um indício do imperialismo econômico e cultural. Os grupos tradicionais das igrejas protestantes, que já se opunham às guitarras e baterias trazidas pela nova geração de músicos, confrontavam agora as canções religiosas socialmente engajadas. Como fruto da politização dos estudantes, e também do envolvimento com a teologia da libertação, surgiu o movimento denominado MPBR, Música Popular Religiosa Brasileira, composto por Jaci Maraschin, Laan Mendes de Barros, Simei Monteiro, entre outros. Os debates sobre a introdução de estilos nacionais na liturgia geraram hinários como A canção do Senhor na terra brasileira e O novo canto da terra, ambos reunindo canções que reagiam contra a "alienação social dos hinos importados". Trechos de algumas canções compostas naquela época nos ajudam a compreender melhor a influência do nacionalismo musical e da teologia da libertação: Bênção da Mesa (Jaci Maraschin) Senhor, Te damos graças porque em volta desta mesa Renova-nos a força de lutar contra a pobreza (...)Senhor, que os nossos pratos, numa terra dividida Um dia se dividam numa terra reunida Saudade da pátria (Valdomiro P. de Oliveira) E o nosso louvor não é nossa canção: Não é um samba, uma modinha, um chorinho nem baião Elevamos ao Senhor o cântico impingido pelos opressores: No seu ritmo, na sua instrumentação (...)Se não preferirmos a canção brotada Desse chão menino, brasileiro, latino, Que a nossa língua apegue-se ao paladar E que não possamos mais cantar A poética dos versos não esconde certa xenofobia que recusa a cultura estrangeira em favor da cultura nacional, caracterizando sentimentos de ufanismo (como diz a última estrofe, seria melhor ficar mudo que cantar hinos não-brasileiros). Hoje, se doutrinas bíblicas fossem cantadas de forma tão excludente, seriam acusadas de fundamentalismo na hora. As músicas protestantes socialmente engajadas encontraram forte resistência: 1- O público mais afeito a inovações, os jovens, preferia rocks e baladas norteamericanas em vez da música brasileira, secular ou cristã. 2- As lideranças mais tradicionais rejeitavam os estilos nacionais como uma pedra de escândalo, pois o samba e o baião remeteriam a fortes conotações de "mundanismo" e não serviriam aos propósitos litúrgicos convencionados. 3- As letras daquelas canções apresentavam um alto teor de denúncia social e politização, o que assustava as mentes politicamente mais conservadoras. Fora o receio de associar a igreja aos movimentos estudantis que radicalizavam a resistência política. 4- Nascida no meio católico, a teologia da libertação misturava Bíblia e marxismo e visava à libertação política e espiritual das camadas populares marginalizadas. Enquanto o Vaticano bania padres ligados ao movimento, os setores protestantes não apoiavam a aproximação do grupo de compositores da MPBR com a teologia da libertação, o que trouxe prejuízos à disseminação do novo estilo litúrgico. Assim, a música popular brasileira religiosa era culta demais para os mais jovens, mundana demais para os tradicionalistas, comunista demais para os conservadores e católica demais para o protestantismo. Apesar de representar bem o espírito estético-político do tempo, a MPB religiosa nem sempre esteve adequada ao espírito litúrgico. E às vezes foi debatida sem espírito cristão. Joêzer Mendonça é músico e faz doutorado em musicologia na Unesp. É autor do blog Nota na Pauta, onde escreve sobre arte, mídia e religião.
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