Carol Gualberto
De pedra a coração PDF Imprimir E-mail
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24 de junho de 2009

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Encontro-me a duas semanas do término de um curso que estou ministrando na UFMG chamado “Composição Coreográfica”. Nas noites de algumas segundas-feiras, eu e oito alunos temos trabalhado uma questão importantíssima do processo de construção de um trabalho coreográfico que é a criação/pesquisa de movimentos corporais.

Durante esse tempo, tenho aprendido muito na troca com esses alunos. Cada um com sua própria história. Mariana está no início de sua pesquisa de mestrado em Filosofia sobre performance, buscando vivências corporais. Salomão é estudante de Química e praticou dança de salão por sete meses. Professor desta dança, Robson tem uma escola em Belo Horizonte. Ana Maria é sua amiga e volta a se encontrar com a dança agora. Jefferson trabalha numa escola dando aulas de danças de rua. Maristela também tem uma escola e é professora de dança do ventre. Cynthia estudou jazz e balé clássico e trabalha com dança em sua igreja. Vinícius sempre estudou essas duas técnicas, é professor em uma escola de dança e aluno de Educação Física na UFMG.

Oito alunos. Oito corpos. Oito danças. É, oito danças incrivelmente inspiradoras e convidativas. Digo assim porque, de fato, são indivíduos abertos para o novo, para a descoberta e que têm desenvolvido o caminho do sensível na construção de uma dança autoral e “democrática” por assim dizer. Autoral porque cada um deixa a sua marca em seus movimentos. Democrática porque revela que a dança é pra qualquer corpo, pra qualquer um que se aventure a se descobrir. Cada vez mais tenho aprendido que isso é possível. A dança abraça todas as formas, todas as limitações, todos os movimentos. O que nos cabe é trabalhar com o que temos; trabalhar com o nosso corpo de hoje.

O corpo sempre será um local de percepções e descobertas; um lugar de transformação pelo diálogo entre as suas particularidades e as informações que nele chegam. No entanto, quando esse corpo se propõe a dançar, ele também é passagem porque dele essas informações transformadas seguem viagem para outros corpos – os daqueles que presenciam a sua dança. E tudo se transforma novamente!

Parece viagem e, de fato, é. O corpo que dança nunca é o mesmo e sempre modifica. Modifica-se. Modifica alguém. Modifica algum lugar, algum estado, alguma coisa. E é a beleza desse percurso que tenho descoberto a cada aula dada, a cada ensaio, a cada pesquisa e apresentação! A dança transforma, muda. Nunca é a mesma e nunca gera o mesmo.

Obviamente esse não é um processo fácil. Desde que nascemos, aprendemos formas para nos relacionarmos com nosso próprio corpo. Apreendemos modelos de movimentações; repetimos esses movimentos incontáveis vezes e, assim, vamos construindo um corpo com um vocabulário social “importado”, nos desapercebendo e esquecendo-nos de nós mesmos. Ainda que esse vocabulário facilite a nossa comunicação uns com os outros, sendo assim necessário, a sua apreensão de forma repetitiva acaba por limitar nossa capacidade expressiva. Temos tantos movimentos pré-codificados que “[...] dificilmente conseguimos criar novos movimentos ricos em expressividade”, disse, em seu livro “A Dança”, Klauss Vianna, representante importantíssimo da dança no Brasil.

Essa é a razão da minha constante surpresa ao perceber corpos extremamente expressivos, não só os desses queridíssimos alunos, mas de tantos outros que tenho tido a oportunidade de ver e conhecer

Dudude Herrmann, um outro ícone da história da dança no Brasil, tem, há muito tempo, “levantado a bandeira” da expressividade e da dança “democrática”. Em seus registros virtuais, disse que “Para dançar, é preciso estudar o mundo e estar disposto a perder o corpo, para reencontrá-lo liberto em sua potência de expressão. É preciso andar pelas linhas de fuga, reconhecendo que as coisas são cíclicas e estão em movimento. A arte é mutável, hoje eu tenho esse corpo, amanhã será outro” (extraído de http://www.dududeherrmann.art.br/).  De fato, só dança quem se perde para se reencontrar num outro lugar, num outro corpo.

Como disse antes, tudo muda. E a dança muda tudo. Tudo muda no corpo; tudo muda a partir desse corpo em movimento. Até a dança muda a todo instante e é essa uma das coisas mais admiráveis no fazer artístico. Saber que tudo está em constante mutação permite renovar-me sempre e aceitar meu momento, meu corpo e suas limitações, minha dança tal qual ela se revela hoje.  Permite que eu (re)conheça a mim mesma e que me (re)conheça no outro, numa troca que, certamente, alegra o coração do Criador de tudo isso.

Voltando à Dudude, ela disse ainda que "A arte representa uma mudança de espaço - os sentidos dilatam; vem o invisível. A experiência do tempo se modifica. Dessa forma, a função do artista é mudar o estado das coisas, fazer uma pedra virar um coração” (extraído de http://www.dududeherrmann.art.br/). Alterar o espaço. Transformar idéias. Corporificar sensações e sentimentos. (Re)Ligar-se com o outro. Buscar vida na dureza. É isso que tenho descoberto nos corpos dos meus queridos alunos. É esse movimento constante que busco. E é pra essa jornada que convido você, querido leitor! Dançando e criando, a gente sempre pode gerar coisas novas e mudar as que são como pedras. Torná-las coração. Coisa bonita, essa! Deixa de ser função; passa a ser parte bonita da gente.

Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA,
bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG
e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo).
É integrante do “Catavento – Dança & Pesquisa”.

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Última Atualização ( 25 de junho de 2009 )
 
Se não puder fazer tudo... PDF Imprimir E-mail
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19 de março de 2009

Imagepor Carol Gualberto

Há dias que tento sentar e escrever algo aqui para o Portal Cristianismo Criativo. Hoje, meio que na base “da marra”, parei um pouquinho, tentando me concentrar pra dizer algo que seja realmente relevante.

A correria é resultado de inúmeros fatores. Sem me deter nos comuns a todos nós (loucura do dia-a-dia, engarrafamentos, muito trabalho e apenas 24 horas, etc, etc.), a minha ganhou um reforço grande, fruto de duas boas “doidices”, “invenções de moda”, como dizem por aqui. Por incrível que pareça, as duas são também artísticas. Que loucura!

Uma delas deu o primeiro passo no ano passado: “Catavento – Dança & Pesquisa”. Eu que achava que já tinha dado toda a minha colaboração para área, que já era hora de deixar a dança um pouco de lado, fui tomada por uma “onda dançante” na minha vida cujos mergulhos - um deles esse grupo - têm me “bagunçado”, mas também me abençoado muito! Pra dar mais tempero pra história toda, estreamos oficialmente no próximo Som do Céu. E, como toda pré-estréia, nossa caminhada até lá tem sido linda e completamente louca! Uma correria que vocês nem imaginam!

A outra “doidice” é daquelas boas! Bem louca mesmo! Por incentivo de pessoas queridas, estou gravando meu primeiro CD solo. Também com lançamento previsto para o Som do Céu e, quem já gravou um CD sabe da loucura que é todo esse processo; ainda mais, tendo que fazer tudo em poucos meses.

Enfim, pra quê falar de tudo isso, né? Nada relevante; nem um pouco importante. Comecei pensando em escrever uma coisa e agora estou aqui, sendo levada pelas minhas palavras e idéias pra um outro lugar.

Descobri, nesse exato minuto, que quero trazer palavras de incentivo – algo que foi extremamente importante pra mim na criação e execução desses dois projetos que descrevi acima. Digo isso porque, por muitas vezes, a gente se sente completamente desnecessário e irrelevante, como se nosso trabalho não fosse fazer diferença alguma. “Pra quê insistir em uma dança nova? Um pingo d’água num oceano imenso de grupos de dança, etc, etc. Pra quê lançar um CD, se eu já sei que, além de gastar dinheiro e ter pouco retorno financeiro, pouco importa se estou gravando boas músicas, se é pra quase ninguém ouvir!”.

Ai, ai... suspiro ao lembrar daquelas sábias e confortantes palavras: “No Senhor, o nosso trabalho nunca é em vão”. A mais pura verdade! Tenho plena certeza de que Deus se alegra quando nós, seus filhos, buscamos divulgar novidade de vida, na promoção da boa arte. E isso faz toda a diferença.

Perseverar nos nossos ideais, por mais utópicos que sejam, faz mover o moinho da mudança, do renovo, e, por que não, de um verdadeiro avivamento! Por sinal, essa é uma palavra que, nos nossos dias, nas nossas igrejas e na nossa caminhada espiritual tem perdido toda a sua beleza. Avivar, acordar, nova vida, novos ares, novas idéias, novos movimentos, novas esperanças, nova fé. Isso é avivamento! E se somos filhos de Deus e discípulos de Cristo, essa é uma forte razão para continuarmos nesse caminho.

Termino lembrando daquele comercial televisivo, super bacana, da “Fundação por uma vida melhor” e tomo emprestado o seu slogan, que bem podia ser o nosso também: “Se não puder fazer tudo, faça tudo que puder”. É isso aí, pessoal! Nada muito complexo, mas extremamente relevante.

Ah, depois volto pra contar do pós-estréia e pós-lançamento!

Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA,
bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG
e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo). É integrante do “Catavento – Dança & Pesquisa”.

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Última Atualização ( 21 de março de 2009 )
 
Da Mediocridade na Dança PDF Imprimir E-mail
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22 de setembro de 2008

Imagepor Carol Gualberto 

"As leis da vida são as mesmas leis da dança... A inconsciência é que gera a mediocridade" (K. Vianna). É assim que começo o livro o qual tive a oportunidade de publicar no fim de 2007 ("Dança: o que estamos dançando? – por uma nova dança na igreja", editora Hagnos). Citando um gênio da dança – Klauss Vianna – procuro esclarecer que é a falta de consciência que produz uma vida medíocre. Regra de vida, regra da dança. Se não temos consciência do que fazemos, escolhemos e até, paradoxalmente, pensamos, resultamos em seres medíocres. Se não temos consciência do que estamos dançando, produzimos uma dança medíocre. Antes, porém, creio ser necessário que eu esclareça o que quero dizer com as palavras "inconsciência" e "medíocre".

Com "inconsciência" digo não apenas da falta de conhecimento (significado tão utilizado para tal palavra), mas da não-aplicabilidade do que se conhece. Consciente, ao meu ver, é quem percebe, conhece, sabe, mas não pára por aí. Segue aplicando suas percepções e saberes nos mais diversos âmbitos de sua vida. Não basta saber; é preciso também agir. Portanto, se "consciência" é igual à soma de conhecimento mais ação, "inconsciência" pressupõe o não-conhecimento ou ainda o conhecimento sem a ação.

Por "mediocridade" recorro ao Michaelis, que traz algumas sugestões de significado que muito colaboram com a nossa reflexão. Ao dizer "medíocre", pode-se entender algo que está entre o pequeno e o grande. Ou ainda algo que tem pouco valor (bem interessante essa possibilidade, não?). E, por fim, algo ordinário ou sofrível (não poucos casos vêm à minha mente que exemplificam bem – ou mal? – esse último conceito). No que tange à dança no meio evangélico, acredito que as três sugestões de significado se complementam e a palavra terá diferentes forças, a depender do contexto ao qual se aplica.

Esclarecimentos à parte, ao fazer o caminho inverso, se o que vemos é uma dança medíocre, pode-se ter como uma das conclusões de causa a inconsciência plena do que se dança.

Se parto desse pressuposto, logo consigo identificar onde está a inconsciência. Posso encontrá-la, a priori, na falta de conhecimento, de saberes propriamente ditos. De forma geral, quem "mexe" com dança nas igrejas mal faz uma aula técnica! Seria demais, portanto, esperar que soubessem um pouco da história da dança ou que tivessem contato com o que tem sido produzido em dança no Brasil e no mundo... ou ainda conhecessem o bastante para promoverem pesquisas e reflexões na igreja e a partir dela. Encontro-a também na opção por não se aplicar o que se sabe. É bem verdade que há muitos cristãos evangélicos que "sabem" da dança, a "conhecem", têm contato com boas escolas e centros de pesquisa, têm sempre à mão inúmeras possibilidades de crescimento (mas é mais "gostoso" ficar sentadinho na acomodação confortável de "fazer o de sempre" e permanecer fechado nos quatro cantos da igreja), vivem até no meio acadêmico (o que sugere uma constante reflexão, pesquisa e crescimento em maturidade) e dançam como se nada disso pudesse ser somado à sua "dança cristã". Por fim, os resultados são, em ambos os casos, uma dança mediana, sem valor ou relevância, quiçá sofrível!

É bom ressaltar a minha solidariedade para com os que não possuem conhecimento pelo simples contexto em que vivem. Quando lembro de oficinas que ministrei em igrejas pequeníssimas, em áreas rurais ou cidades com pouco acesso às "ofertas" dos centros urbanos, meu coração se alegra só de saber que aquelas pessoas procuraram conhecer, mesmo que tudo pudesse justificar uma dança "pequena".

Por outro lado, confesso uma absoluta impaciência quando vejo danças medíocres por pura "falta de vontade" de crescer! Ou porque essas danças, como todas as produções medíocres no Brasil, vendem mais, têm mais apelo popular, são facilmente absorvidas pela massa ao não desafiá-la à reflexão. A coisa piora quando se alega que toda essa produção tem autoria do Espírito Santo. Nos dizeres do grande Gedeon Alencar, "aceita a 'inspiração divina', quem é que vai se responsabilizar pela mediocridade?" (p. 79, Protestantismo Tupiniquim, Arte Editorial) da falta de técnica, das formas, da falta de relevância? Exemplos de danças assim, tenho vários e que vou deixar para citar em um outro momento.

Por hoje, fico apenas com a sabedoria do mestre Klauss Vianna, com a alegria em ver espaços como esse portal, com a ansiedade pela realização do II Fórum Nacional de Cristianismo Criativo (cujo tema é "Viciados em Mediocridade"?) e contando com a misericórdia de Deus – pra que eu nunca seja encontrada acomodada em minha pequenez.

Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA,
bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG
e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo)

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Última Atualização ( 21 de março de 2009 )
 
Qual é a sua dança? PDF Imprimir E-mail
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14 de julho de 2008

ImagePor Carol Gualberto 

Passeando pela internet, sempre desejando entender como os cristãos têm se relacionado com a dança, esbarrei em uma pesquisa on-line que perguntava: Qual é a sua dança preferida? Para responder, bastava escolher uma das opções: dança moderna, balé moderno, balé clássico, dança litúrgica, dança de rua, dança hebraica e dança espontânea.

Passeando pela cidade e observando os letreiros, li a placa de uma grande academia que, dentre tantas modalidades corporais como Jazz, Musculação, Balé Clássico e Jiu-Jitsu, oferecia ainda o curso de Dança de Adoração.

Passeando por aqui e com uma profunda inquietação, optei por “dar a cara a tapa” e dizer que, em meio a tantas opções esquisitas, ainda não me encontrei. Qual é a minha dança? Quem pergunta certamente não sabe muito bem a enorme diferença entre dança moderna e balé moderno, quanto mais os fundamentos (se é que eles existem) das danças litúrgica e espontânea. Ainda assim, percebo-me um “peixe fora d’água”, sem lagoinha pra nadar.

O que define a dança? Sua técnica, seu intuito, seu contexto? Será que essas danças com nomes gospel têm como objetivo santificar a dança que a igreja acredita ser tão mundana e impura?O que significa ter aulas de Danças de Adoração ou Dança Profética? Se a Bíblia já define o que é adoração (Colossenses 3:17 – “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.") porque preciso fazer aulas pra aprender a adorar com a dança? Ela, que por si só, pode adorar a Deus a partir do momento em que eu faço uma coreografia bem feita, ainda que a mesma não tenha uma temática óbvia cristã. Posso adorar a Deus com danças fazendo uma boa aula, ainda que o curso seja de dança-afro ou qualquer outra dança “menos sacra”. Se busco crescer, estudar, pesquisar e me aperfeiçoar corporal e tecnicamente, estou adorando a Deus, ainda que focada mais no corpo (ou seria carne?) que na “alma”. 

E com toda essa confusão e bagunça espiritual, descobri que adorar a Deus é, essencialmente, tratar o assunto com seriedade e propriedade, não sendo levado por qualquer nova onda que surge, legitimando bizarrices e loucuras ─ a-danças inventadas em nome de Deus.

Qual é a sua dança? Dentre as opções sugeridas pelos modismos evangélicos, ainda não encontrei a minha resposta. Espero que você também não.

Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA,
bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo).

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Última Atualização ( 04 de setembro de 2008 )
 
Um novo passo PDF Imprimir E-mail
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14 de julho de 2008

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Quoi qu'il en soit, de Maguy Marin
por Carol Gualberto

No meu primeiro texto publicado aqui no Portal Cristianismo Criativo lancei uma pergunta e me lembrei de um momento importante da minha caminhada, quando "perguntar" era o tema principal. Quis compartilhá-lo aqui.

Em 2000, durante a minha estada em Campinas/SP, tive a oportunidade de assistir ao espetáculo Quoi qu'il en soit, de Maguy Marin, coreógrafa e pesquisadora francesa que muito tem colaborado para a pesquisa em dança no mundo todo. Um quinteto formado por bailarinos construiu no palco, não apenas uma coreografia de renomada autoria, mas um convite à reflexão identitária e aos processos de construção de cada indivíduo.

"Quem sou eu?", "Como cheguei até aqui?" e "Por qual caminho quero percorrer?" são algumas das perguntas que saltaram do palco à medida que o espetáculo corria. Com extrema sensibilidade e uma costura incrível de movimentos, a obra de Marin se mostrou tão bem construída e perspicaz que não havia como não se deixar envolver e permiti-la que encontrasse lugar nos nossos (meu, de meus amigos que ali também estavam e do restante do público) corpos e idéias. Quisera a dança "cristã" fosse assim!

Naquela época, a dança começava a construir seu espaço dentro da igreja evangélica. E eu, com os workshops e oficinas que ministrava, participava, mesmo que de forma singela, desse processo de conquista e estabelecimento da dança entre os cristãos. Não havia como não relacionar aquelas questões com as vividas por mim e pela igreja naquele momento. "Quem sou eu frente à realidade da dança e da igreja hoje?"; "Como a dança chegou até aqui?"; "Qual o caminho que espero que seja construído pela/para a dança?". Animada e cheia de expectativas, buscava respostas e procurava estimular outras pessoas a essa reflexão. Lembrando de como aquele foi um momento marcante para mim e relacionando-o com o atual, percebo que, todas aquelas respostas tão buscadas em 2000, precisam hoje ser reformuladas a partir de novas reflexões e investigações. As perguntas devem ser refeitas e, certamente, as respostas serão bem diferentes.

Se em 2000, tínhamos uma dança-menina, ainda nova, cheia de possibilidades e sonhos, oito anos depois vemos uma dança que, ao contrário de crescimento, revela imaturidade e "bases" extremamente perigosas. Como uma casa construída na areia, a dança na igreja hoje corre riscos de ocasionar "desmoronamentos e tragédias" (não só espirituais, mas de inúmeras dimensões da igreja e dos indivíduos), além da alienação gerada pela fraca produção na área. Fraca porque é imatura. Fraca porque não é capaz de lutar nem contra o mal estabelecido no mundo, nem a favor do Reino de Deus. Fraca porque é irrelevante.

Hoje, em setembro de 2008, desafio você, que dedicou alguns minutos para essa leitura a, mesmo não assistindo à obra de Maguy Marin, a se fazer essas perguntas e levar outros a se questionarem também. É esse processo constante de indagações que produz maturidade, crescimento e fundamentos cada vez mais sólidos. Talvez as respostas não sejam encontradas com facilidade. Reafirmo, entretanto, a importância do questionamento, fazendo minhas as palavras de Jorge Schroeder, amigo e músico do Departamento de Artes Corporais da Unicamp, que tanto estimulou minhas investigações incessantes: "Continuo sem várias respostas, mas o fundamental que aprendi aqui foi dar o passo de formular as perguntas." (A Música na Dança: reflexões de um músico, 2000, p.114).

ImageDe fato, urge que a igreja aprenda esse "novo passo". Queremos ver uma dança forte, relevante e genuína? Queremos que a dança encontre seu lugar na igreja? Cresçamos nós em conhecimento e verdade, mesmo que em meio a tantas e contínuas perguntas.

Ah, e pra quem quer ter a mesma oportunidade que tive, Maguy Marin e sua companhia estarão pelo Brasil em outubro/novembro, com o espetáculo Umwelt (2004). Vale a pena assistir porque não é sempre que a companhia passa por aqui. Confira as cidades e as datas:

    • Dia 14/10 – Recife/PE
    • Dia 17/10 – Fortaleza/CE
    • Dias 25 e 26/10 – São Paulo/SP
    • Dia 30/10 – Rio de Janeiro/RJ
    • Dia 02/11 – Belo Horizonte/MG

Outras informações sobre a Companhia Maguy Marin: www.compagnie-maguy-marin.fr

Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA,
bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo).

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Última Atualização ( 14 de outubro de 2008 )