É primavera, mas ainda está frio PDF Imprimir E-mail
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23 de janeiro de 2008

Por Gerson Borges  

ImageEstou nos EUA - grande Boston - por duas semanas. Vim cantar e pregar em uma conferência de louvor numa igreja presbiteriana. Eu e meus amigos, Guilherme Kerr e Ronaldo Bezerra. Nada demais até aqui, exceto pelo fato da frase quase poética: é primavera, mas ainda está frio.

Já vejo flores por todo canto. Os sparrows e mockinbirds estão por todos os lados e as cores das flores iluminam o dia. É primavera, mas ainda está frio. Desses oito dias, só em dois eu vi o sol, provei de seu calor, bebi de sua luz, da vida, do fogo do sol. As pessoas já se animam a caminhar, praticar esportes, pôr bermudas e calçar chinelos. O aquecedor já pode ser desligado um 'cadinho'. Janelas e portas podem ser abertas. Mas a frase, meu mote, se repete: é primavera, mas ainda está frio.

Num só dia, muitos sinais da primavera me acenderam a luz da alegria no coração de brasileiro e de pastor: li num jornal local que Rosa Passos recebera em Berklee, aqui ao lado, no sábado passado, o título de Doutor Honoris Causa por sua contribuição como cantora de MPB. À noite, num bar-restaurante onde fui jantar com meu amigo Igor, um americano simpático puxa conversa e, do nada, conta que morou em São Paulo, gosta muito do Brasil e é cristão. Gosta muito de música, checa meu website no seu iPhone, quer meu CD, quer manter contato. Depois do lanche, como era um dia de folga ministerial, vamos ao cinema. Downtown. Escolhemos um filme pela conveniência do horário. A surpresa agora fica por conta dos atores: Alice Braga e Rodrigo Santoro. Trilha sonora? MPB, da boa. O filme é fraquinho (sobre Jiu-Jitsu falado em inglês, dirigido por americanos), mas a alegria é grande. O Brasil "evangelizando" culturalmente a América? Delírio meu?

Exagero? Afinal, desde a crítica que Carmem Miranda recebeu (e respondeu cantando "Disseram que voltei americanizada ...") e que Tom Jobim desdenhou - com a autoridade de quem é o compositor mais executado nos EUA depois de Lennon & McCartney ("Fazer sucesso no Brasil faz mal"). Temos exportado muito mais do que faxineiros, lavadores de prato em pizzaria, jardineiros, pintores de paredes, trabalhadores braçais. Temos exportado nossa alegria de "viver e não ter a vergonha de ser feliz".

É primavera, mas ainda está frio.

Sempre que venho aqui ou na Flórida, sempre que visito igrejas e imigrantes, ouço histórias tristes de gente que deixou tudo e todos no Brasil e veio em busca de um pouco mais de dignidade, isto é dinheiro - para educar os filhos, comprar uma casinha, abrir um negócio.

E ouço outras histórias lindas, como a de uma capixaba que virou dentista no exército americano (me doou um broche), tem medo de ir para o Iraque e sonha em ser mãe. Converteu-se aqui. Ou a história de um mineiro (oito ou nove em cada dez dos brasileiros que imigram pra cá) que ficou quase cinco anos longe da esposa e do filho, ilegalmente, correndo risco, abrindo o caminho para a família - e que, alguns dias antes da chegada da esposa, me disse que "não tinha para onde levá-los". Ou como a de uma prima de uma grande e famosa jornalista da Globo, que vive sozinha com a filha adolescente (grávida).

Euclides da Cunha dizia que "o sertanejo é, sobretudo, um forte". Eu diria O BRASILEIRO é sobretudo teimoso. Teima pela vida, pela vida que seja digna, boa, gostosa de viver - ainda que para conquistá-la, o preço seja algo assim, como descrevi.

É primavera, mas ainda está frio.

O pastor que me hospeda e acolhe nesses dias, Manoel Oliveira Jr, um jovem goiano talentoso, inteligentíssimo, tem mestrado e doutorado em Teologia pelo prestigiado Gordon-Cornwell Theological Seminary, depois de ralar para pagar seus estudos com diversos tipos de empregos simples e comuns. Hoje, PHD, já presidiu o presbitério da Igreja Presbiteriana da América na região de Boston e é muito respeitado como pastor e teólogo. Eu insisto: estamos exportando mais do que Etanol e carros bi-combustíveis, bossa nova, MPB e cultura. Exportamos vida, talento, vigor e paixão pelo Senhor e seu Reino.

É primavera, mas ainda está frio.

Meu amigo Igor, brasileiro naturalizado americano, empresário, acabou de me dizer que essas pessoas que literalmente floresceram, ainda são muito pouco ou quase nada comparada com o que o frio, o gelo e a neve remanescente do longo inverno ainda cobrem. Mas ele também me lembra que algumas flores aparentemente morrem por fora e por cima, mas como sua raiz está viva e conservada, nos primeiros sinais da primavera começam a recuperar suas cores, sua vida.

Essa minha crônica já está ficando meio longa. Vou encerrá-la com um texto de Cantares (2.12,13), profecia de vida, que me veio à mente enquanto escrevo:

      Eis que já passou o inverno, a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, já chegou o tempo de cantarem as aves, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira começa a dar os seus primeiros figos; as vides estão em flor e exalam o seu aroma".

Comentários
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levi nauter  - Muito Bom     |200.175.115.228 |02-06-2008 12:51:51
A crônica está ótima. Em bom tamanho. É sempre bom encontrar parceiros cristão com sensibilidade de ver além, ver com os olhos da poesia. Parabéns!

Levi Nauter
Gerson  - Obrigado por escrever     |200.161.61.18 |11-06-2008 17:26:55
Caro Levi, agradeço sua gentileza em comentar meu despretencioso texto. Sim, é preciso outros olhos para ver outras coisas ou para além do óbvio. É preciso o susto e o encantamento da
poesia.

Saúde,

Gerson

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Samuel   |201.29.223.178 |06-06-2008 10:23:44
Bastante comovente está crônica. Que o bom Deus continue a abençoa-lo para que continues a ser uma bênção para muitos.
Gerson     |200.161.61.18 |11-06-2008 17:34:54
Prezado Samuel, alegra-me a sua capacidade em deixar-se comover com algo simples, mas tão humano : o caso de ( tantos ) brasileiros emigrados/imigrantes", exilados/exilando-se... gente como a
gente, de algum modo, estranhando-se ou estranbgeirando-se.

Paz, querido,

Gerson

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Evangélico Cínico  - Xenofobico   |68.229.193.53 |09-06-2008 15:17:18
Nesse manto de brasilidade, você se envolveu também em xenofobismo e um senso de superioridade por achar que ser brasileiro é melhor que ser qualquer outra coisa.

Você se esquece que ir para um país
ilegalmente é pecado. Você se esquece que este país em que vivemos é um dos mais corruptos do mundo e que qualquer pessoa com bom senso e inteligência quer é dar o fora!

Usar a bíblia para justificar
a superioridade cultural de um país é uma vergonha que esta publicação não deveria passar.
João  - Muita calma nessa hora   |201.9.222.179 |09-06-2008 21:52:02
Talvez o autor tenha exagerado um pouco, também sou contra o xenofobismo. Creio que ele estava apenas feliz por ver que nosso país não é tão zero à esquerda, só que terminou por coloca-lo como zero
repetidas vezes à direita.
Gerson  - Um problema de conceito ...     |200.161.61.18 |11-06-2008 17:46:11
Bem, meus caros, temos um problema conceitual aqui: xenofobia tem a ver com preconceito e/ou doença que , reza o verberte , gera " medo ou aversão ou que é estranho ou estrangeiro ". Creio
que o termo está fora de lugar e proposito. Equívoco!

Perguntas:

1. Tenho ( ou teria demostrado no meu pequeno texto ) medo ou aversão de quem : dos Brasileiros ou dos Americanos? Nem acho que
elogio demais os brasileiros nem ataco os americanos. Não foi isso que escrevi!

2. Estou ( ou estaria )idolatrando a cultura brasileira ao dizer " estamos exportando mais do que Etanol e carros
bi-combustíveis, bossa nova, MPB e cultura. Exportamos vida, talento, vigor e paixão pelo Senhor e seu Reino. " ? Puxa, creio que a resposta mais sensata e óbvia seria não . Não adoro a cultura.
Adoro a Deus.

3. Sinceramente, em nenhum momento o meu texto afirma que o brasileiro é luxo e o americano é lixo ( ou vice-versa ). Eu disse que " é primnavera mas ainda está frio ". O que
quis dizer com isso? Bem, como diria Paulo Mendes Campos, " não sou eu quem interpreta a poesia - ela é que me interpreta e me explica."

Mas, de coração, orbigado por escrever!

Gerson

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Igor Gomes  - O Brasileiro/Americano citado   |67.90.33.234 |19-06-2008 21:40:44
Oi Pr. Gerson,

Que linda sua versão do que está acontecendo aqui nos EUA. Minha família chegou aqui numa noite fria de 15 de Janeiro de 1994. Viemos com o Visto de Turista e não ficamos nenhum dia
ilegal neste país. Hoje sou Cidadão Americano, com grande orgulho de ser ambos Brasileiro e Americano. Amo os meus paises. Porém não me sinto superior a ninguém na mesma maneira em que o Pr. Gerson
(conheço-o pessoalmente muito bem) em nenhum momento deu entender que alguém é superior a outro. E sim que a má fâma de que as pessoas que vêm para esse país são meros "pecadores" como foi
dito aqui, é incorreta. Existem sim, pessoas que vem servir à Deus e procurar uma vida melhor e trazem consigo muitos talentos, muitos dos quais são bem usufruido pelos americanos. Não existe
superioridade quando o Brasil da mesma forma também usufrui de muitas influências americanas. O que mais aprendo com o Pr. Gerson em tudo o que ensina, é a clareza do seu amor. Amor que vem do Pai,
amor que é demonstrado lindamente pelas suas palavras, mas muito mais pelas suas atitudes. Realmente é primavera mas ainda está frio no sentido de que podemos crescer. Crescer em amar, amar como o
Senhor nos amou.

- Igor Gomes
Edivaldo Daga  - O abismo entre palavras e cora   |189.54.178.133 |22-06-2008 12:05:17
Valeu + uma vez Mano !
Poesia e crônica se misturam num rasgar de sentimentos; pena que essas coisas só entende quem procura a cada dia estreitar este abismo entre Palavras e sentimentos, e só quem
anda ou andou um pouco junto consegue entender o verdadeiro sentido das Palavras que brotam do Coração. Caso contrário as criticas só podem ficar no campo das idéias !
Continua que tá " bão a
beça " !
Em tempo ( Bom te rever ontem )
Jorge vitorio  - Coisa boa, boa mesmo   |201.23.202.10 |16-01-2009 18:32:01
Gerson com certeza Deus sempre te iluminara, seja escrevendo, cantado, falando enfim onde colocar a planta do pé, seja assim nossas vidas para honrar e glorificar a DEUS, um grande abraço, te amo com
amor de Cristo.
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Última Atualização ( 22 de junho de 2008 )
 
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