Muito além do jardim digital PDF Imprimir E-mail
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29 de setembro de 2008

Imagepor Whaner Endo 

Em sua obra Muito além do Jardim Botânico (Summus Editorial), Carlos Eduardo Lins da Silva fez uma análise da audiência do Jornal Nacional entre trabalhadores, lá em meados da década de 1980. Ele procurou identificar, por meio de um estudo de recepção, que impacto os meios de comunicação em massa tinham sobre as pessoas, usando como base o mais assistido telejornal brasileiro. Segundo Lins da Silva, todas as pessoas constróem representações da realidade social em suas cabeças, baseadas nas interações que elas têm com a sociedade, e assim formariam juízos de valores que se tornariam "verdades" – ou seja, segundo ele, "a verdade de cada um é a idéia do real que cada pessoa crê ser a mais fiel ao que efetivamente existe".

Com base nesta premissa, além de outras, Lins da Silva fez uma crítica aos provedores de conteúdo televisivo, que por estarem intimamente ligados aos que detinham o poder econômico, passavam a promover conteúdo ideologizado, disseminando valores que em nenhum momento eram antagônicos aos das classes hegemônicas.

É claro que, como afirmou Lins da Silva, essa mediação ideológica ocorria também na família, na escola e na igreja, mas como ele mesmo destacou, "ela é bem realizada quando as pessoas não percebem. Daí, a importância do seu desvelamento". Várias hipóteses foram levantadas pelo pesquisador para afirmar que existia a possibilidade de uma leitura crítica pelos trabalhadores pesquisados, barrando o processo de massificação do telejornal.

Mais de vinte anos depois, e já com o advento da internet consolidado na sociedade, podemos tentar analisar este conceito sob o mesmo prisma com que Lins da Silva avaliou a televisão. Assim como a "verdade" é disseminada pelos grupos de poder através da telinha, é evidente que a grande rede pode ser usada para fim semelhante – mas considerar as mesmas hipóteses pode evitar que o internauta caia na armadilha do pensamento único.

• Primeira hipótese: grau de inferência de outras fontes. Confrontar o que é lido na internet com outras pessoas e instituições sociais, permitindo criticar ou rejeitar o que se lê
• Segunda hipótese: grau de conhecimento. Quanto maior o grau de conhecimento que o internauta tem do assunto, menor a chance de ele ser manipulado
• Terceira hipótese: o grau de conhecimento do meio de comunicação. Quem conhece a internet e o seu processo caótico de produção de conteúdo sabe que, muitas vezes, a veracidade do que é lido pode ser questionada

Resumindo as hipóteses listadas, todo internauta deve buscar confrontar o que lê com outras fontes de informação, aprender sobre o tema tratado e entender que a internet - como já afirmei nesta coluna em outras edições - é um emaranhado de informações e de pouco conhecimento. Essas práticas são suficientes para permitir o início de uma leitura crítica do que se encontra nas bilhões de páginas de conteúdo existentes na web.

É claro que, como lembrou Lins da Silva, essas três variáveis normalmente aparecem associadas a fatores demográficos como grau de instrução, nível de renda, grau de urbanização, etc. e, por isso, não são só os usuários que deveriam se preocupar com essa questão social, mas os provedores de conteúdo também – ainda mais no caso da Igreja. Se é tão fácil manipular informações e promover ideologias pela web, fica explicado o motivo da existência de tantos sites e portais ligados, de uma forma ou de outra, àqueles que detêm o poder econômico, doutrinário e institucional dentro do arraial evangélico.

Construir um portal independente deveria ser a missão de todos que possuem a bênção de serem provedores de conteúdo. É claro que a autonomia não significa neutralidade. Muito pelo contrário, pois todos possuem suas convicções, sejam elas políticas ou ideológicas, mas ser independente é deixar claro quais são estas convicções.

O respeito por aqueles que pensam diferente é outra característica fundamental aos que desejam fazer diferença. Interação é fundamental; por isso, tratar bem os que investem tempo comentando posts e textos faz parte desse respeito.

Hoje, pode-se avaliar a relevância de um site através das interações que ele permite. A simples avaliação da audiência ou do número de visitantes não significa nada em tempos de Web 2.0. Se você fala com alguém, mas não obtém resposta, algo está errado. Lembre-se disso. Muitos julgam a sua audiência como um simples número, um co-adjuvante no processo de comunicação digital. Ledo engano...

Certa vez, Elis Regina falou do violonista Hélio Delmiro, que tocou com ela em shows e gravações memoráveis como "Águas de Março", do disco Tom&Elis, e afirmou que várias vezes diminuía o volume da sua potente voz, apenas para ouvir Delmiro tocar... Quantas vezes você já ouviu essa música e nunca reparou no "violão divino"? Sem ele, talvez o brilho da música não fosse o mesmo...

Na internet, os leitores e as suas reverberações são tão ou mais importantes que o próprio conteúdo, da mesma forma que Delmiro não era co-adjuvante, mas deveria dividir com Tom e Elis a atenção de todos. Valorizar as interações e, mais ainda, os conteúdos que gerem não apenas polêmica, mas discussões e reflexão, é fundamental para aqueles que almejam se destacar, tornando-se relevante em tempos de Web 2.0.

Reforçando, se você possui um blog ou portal, não se esqueça de responder aos comentários deixados por seus leitores. A moderação dever ser feita apenas em casos extremos e não quando os comentários são contrários àquilo que você pensa.

Na conclusão de seu livro, Lins da Silva afirma que "não é necessariamente verdade que todos os trabalhadores brasileiros recebam mensagens da televisão passiva e acriticamente e que façam da visão do mundo que ela lhes apresenta, a sua".

Da mesma forma que esse senso crítico existia em alguns, hoje ele existe em muitos internautas. Se você é um deles, ótimo! Se não é, está na hora de tornar-se um... Agora, se você é provedor de conteúdo, a sua responsabilidade é muito maior!

Que neste “jardim digital”, os sites e os portais criados por cristãos dêem frutos e, através deles, o nome do Senhor seja engrandecido.

Whaner Endo é publisher da W4 Editora, mestrando em comunicação social pela
Universidade Metodista de São Paulo e pesquisador do NP4 - Núcleo de Produção Editorial
da Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação

Comentários
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Wagner Archela  - Muito Bom.   |200.150.171.216 |29-09-2008 18:11:13
Oi Whaner,

Belíssimo texto! Concordo plenamente.

É bem verdade que a palavra "sitio" faz referência ao espaço privado. Os blogueiros como proprietários legítimos dos seus espaços, podem
conduzir a discussão conforme suas propostas e ninguém tem nada com isso... até ai tudo bem.

Mas como você disse muito bem, qualquer veiculo que propõe a "opinião" e não tem o espaço
generosamente aberto para a discussão está a principio sob suspeita.

Há muita manipulação "cult" na internet, cuidado internauta! "Como diz a VISA... "o mundo quer
você!"

Parabéns pelo portal Cristianismo Criativo! Esse tem provado estar mais para "praça" do que para "sitio" e isso é muito bom.

Abraço

Wagner Archela
Whaner Endo     |189.102.97.54 |30-09-2008 10:53:17
Opa!
Obrigado pelo comentário, Wagner.
Gostei da idéa de praça e não sítio...
Abração.
Volney Faustini  - Conversar e se sentir   |01-10-2008 08:49:54
Conversar e se sentir à vontade.

Concordo com vc Whaner que é essa a tônica de se deixar os comentários abertos e de participar do diálogo.

A internet (em resumo) é conversa.

E o legal aqui
no CC é que temos muito, muito disso - conversações.
Whaner Endo     |189.102.97.54 |01-10-2008 10:21:48
Fala, Volney.
É isso ai. Acho que a interação é tudo na internet 2.0. Pior que tem gente por ai que se acha o Rei da Cocada Preta (alguém pode me explicar isso?) e não tem a mínima noção disso...
8-P
A gente valoriza muito essa conversa aqui no PCC... Acho que existem dois grandes diferenciais do nosso portal para os demais: 1. o conteúdo gerado e agregado e 2. a interação dos colunistas,
afinal TODOS respondem aos comentários.

Abração e que venha o próximo zOnA!
Cesar Souto  - Polifonia     |200.140.3.124 |28-03-2009 23:41:42
Gostei muito do relato do episódio da Elis. Ouvir o Delmiro assim tão de perto deve ser uma experiência de "fomento da humildade", no mínimo. Mas pra realizar esta experiência é preciso saber
ouvir. Assim como para interagir na internet, sejamos produtores ou consumidores de conteúdo, é necessário saber ouvir, interpretar, abandonar de vez o mito da neutralidade. É preciso estar disposto a
passar algum tempo com a galera na praça. Sem nenhuma pressuposição de superioridade, ou de que se detém um conhecimento privado. A galera pensa, sabe das coisas.

Muito bom o texto Whaner!
Gostei da
praça. Passarei mais vezes por aqui.
Abraços,

Cesar
Whaner Endo  - Ainda há tempo?     |201.52.130.94 |25-08-2009 19:53:17
Oi, Cesar.

Cara, ainda há tempo pra eu te agradecer a visita? 8-)
É isso ai, ouvir antes de tudo e sair do muro são atitudes importantíssimas nos dias de hoje, tanto dentro quanto fora da
Net.

Abração
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