|
por Gerson Borges
Elis, aquela personalidade e aquela voz que riscou a MPB em antes e depois de si, gravou uma canção (em definitivo, como quase tudo o que fez - coisa difícil é regravar algo que a baixinha registrou!) do Zé Rodrix e Tavito: "Casa no Campo". Esse hino-ao-modo-de-vida-no-interior, que traz consigo aquele tom deliciosamente telúrico das coisas de Minas, aquele arcadismo inconcluso, aquela celebração do rural, da roça, da vida simples do mato, coisa meio hippie, eu sei, mas que me lembra Rubem Alves: "Deus é um jardineiro: no princípio, fez Deus...um jardim". A letra, bela, crua, começa assim: Eu quero uma casa no campo Onde eu possa compor muitos rocks rurais E tenha somente a certeza Dos amigos do peito e nada mais ".
"Rocks rurais" é uma pérola, mas, sinceramente, " somente a certeza dos amigos do peito e nada mais ", o que comentar? É pura Imago Dei, Graça Comum, Teologia da/na Cultura. Frase mais trinatária, rapaz! E a letra continua a tocar as bordas da alma quando afirma: "Onde eu possa plantar meus amigos/ Meus discos e livros/ E nada mais". Quem precisa mais? Deus está no meio desse tripé, ô se está - e como está - "Amigos": comunhão, família, relacionamentos que valem a pena; "discos e livros": o que recebemos da Humanidade e retornamos à cultura - a criação, o belo, a arte, a poesia, o canto - numa palavra, sabedoria; "E nada mais". O que se necessita pra viver, senão a Graça da Comunhão, com Deus, conosco mesmo e com os outros? Nada mais. A vida pode e devia ser bem mais simples. "Pureza de coração ", dizia Kierkegaard, "é desejar uma coisa só". Então, pensando nisso, eis Os 10 Discos da Minha vida (ainda um eco do meu texto anterior, aqui no Portal Cristianismo Criativo, "O que você está lendo?". Será que não são seus também? 1. Clube da Esquina (Milton Nascimento) Uma absoluta obra de arte, um divisor de águas (de terras e de céus) pra mim. Lenine disse que resolveu se tornar músico depois de conhecer essa preciosidade. Pura comunhão estética! 2. De vento em popa (Vencedores por Cristo, com Guilherme Kerr, Sérgio Pimenta, Nelson Bomilcar e outros) O primeiro LP (sic que comprei na vida, aos 12 anos de idade. Cheguei em casa, coloquei na vitrola (!) e ouvi, ouvi, ouvi... ainda vale a pena ouvir hoje, 20 anos depois. Conclua. 3. Diamond Land (Toninho Horta) Depois de um show do Toninho, cheguei em casa absolutamente em crise: quase desisti de tocar, compor e cantar, de tão inútil que me pareceu o som que eu fazia - perto das preciosidades desse gênio da harmonia e melodia, esse virtuose da guitarra. 4. Vento Livre (Guilherme Kerr e IB do Morumbi) Depois de "De vento em popa", seguramente o álbum mais importante de música feita por cristãos no Brasil. Além das obras-primas formadas pelo casamento das letras lindas do Gui Kerr e das melodias geniais dos Jorge - o Rehder, o Camargo - e do João Alexandre, tinha até o piano internacional e jazzístico de Eliane Elias... imagina! 5. American Garage (Pat Matheny) Depois de Toninho Horta, sem dúvida o jazz-rock de Pat, essa coisa indescritível, pós-tudo, com a sutileza do piano arrebatador de Lyle Mays marcou para sempre meus ouvidos e alma adolescente. 6. Família Jobim (Tom Jobim e Nova Banda) O primeiro Jobim que eu realmente ouvi, com calma e com espanto, sobretudo "Passarim". "Borzeguim" e "Chovendo na Roseira". Lembro que eu e minhas irmãs tentávamos "tirar de ouvido" os vocais e as harmonias... por horas, sem cansar. 7. A Missão (Enio Morriconi, trilha sonora do filme) Quem ouve reverentemente os temas desse gênio italiano esquece o que está rolando nas telas. Poucos compositores no mundo têm a capacidade melódica e lírica de Morriconi. Arrebatador. 8. The Soul Cages (Sting) Gosto intensamente de tudo o que o Sting compôs e gravou na fase pós-police, mas Soul Cages é singular: ouvi por horas a fio, anos a fio, do início ao fim. Sting é Chico Buarque inglês. Poeta. Culto. Teatral. 9. Francisco (Chico Buarque) Aí é dose: reduzir a obra de Chico a um único álbum... se não fosse esse, ficaria com "Paratodos " ou "Almanaque ". Chico é sem comentários. Numa palavrinha: mestre. 10. Kind of Blue (Miles Davis) Esse álbum, considerado "O maior de todos os ábuns de jazz de todos os tempos", mostra quem é Miles e o que significa termos até então tão herméticos como "cool", "jazz modal". Coisa linda de tão... simples! A lista melhor seria "Os 100 mais ", no entanto, 10 é bacana, sintetiza. Se um dia eu for para a roça, como o eu lírico de "Casa no Campo ", esse álbuns estarão no topo da minha estante. Gerson Borges é carioca, músico e pastor, gosta de toda música/poesia que, no dizer de Ariovaldo Ramos, "é sacra, porque revela a beleza de Deus e da sua criação, o homem".
*** Gostou do artigo? Então, RECOMENDE para um amigo. Não gostou? Indique para um inimigo! CLIQUE AQUI. *** |