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 Foto by Gutter (tinyurl.com/5us9s4) por Carlinhos Veiga
Na década de 80, a Mocidade Para Cristo realizou um encontro de obreiros do continente americano que marcou a minha história. Além da comunhão com companheiros das três Américas, trocas de experiências, tivemos algumas aulas de reciclagem. Um delas tratava do tema Planejamento. A premissa básica era: “quem não planeja, vive sob reação”. Uma simples frase, mas que me ajudou e tem me ajudado na vida pessoal e no ministério. Saí daquele encontro pensando sobre o que eu esperava alcançar com a minha vida e a vocação recebidas de Deus. Na época, liderava o grupo musical Expresso Luz e comecei a verificar que o nosso trabalho era a representação exata daquela frase. Não havia planejamento, por isso simplesmente reagíamos aos convites, às propostas dos outros etc. A partir daí começamos definir onde pretendíamos chegar com nosso trabalho musical. Creio que é assim que muitos artistas trabalham. Sinto que somos muito acomodados e desarticulados. Estamos tão acostumados a reagir aos convites que já não mais sabemos onde pretendemos chegar com a nossa arte. Satisfazemo-nos com uma agenda cheia de apresentações e viagens, que nem percebemos que o nosso trabalho mais se assemelha a um barco à deriva. E, via de regra, chegamos ao fim do ano com uma sensação de que não saímos do lugar, como se estivéssemos andando em círculos. Tenho convivido com muitos artistas fora do meio evangélico – alguns bastante conhecidos – e aprendido com eles. Vejo que esse pessoal tem outra compreensão da sua arte. Reconhecem que são bons, que têm um trabalho relevante, mas principalmente que nada acontece por acaso. Esmeram-se em pesquisas, debruçam-se sobre livros e demais literaturas, vão atrás do conhecimento de elementos essenciais para a determinação da linha e identidade de seu trabalho; gastam horas a fio no estudo e desenvolvimento de técnicas, relacionam-se com outros artistas e trocam informações. Tudo isso é extremamente necessário. No entanto, não se esquecem de que o trabalho não pára por aí. Dedicam-se não só à elaboração da sua obra, mas também à sua produção e divulgação. Acho que é aqui que muitos de nós temos pecado. Vejo gente que tem um trabalho atraente e de bom conteúdo, mas que não sabe o que fazer com o que tem em mãos. Alguns chegam a ficar amargurados quando não são convidados a dar uma “palhinha” nos eventos dos sonhos. Outros ficam comodamente assentados, aguardando os convites baterem em sua porta, ou tornam-se uns chatos, insistindo com os produtores de eventos cristãos, sem nenhum “senso de noção”, se autoconvidando de modo incisivo, quase implorando por uma participação. Desses, tem muita gente correndo léguas... Vejo, por outro lado, bandas de igrejas tristes e sofridas porque não têm espaço em suas comunidades para mostrar seu trabalho. Antecipo minhas desculpas pela opinião sincera, mas acho que algumas bandas não têm, não devem ter, nem nunca terão espaços em suas igrejas... E sabe por quê? Porque seu estilo musical entra em choque com o modelo litúrgico vigente. E não vejo crise nisso. Insisto: temos que planejar o que pretendemos com a nossa arte. Eu, por exemplo, já cheguei à conclusão que não quero fazer música gospel, ou seja, produto para o consumo exclusivo da igreja. Quero produzir algo que consiga vencer os muros da dicotomização evangélica. Digo isso porque vi Jesus agindo assim e dizendo: “vós sois o sal da terra... vós sois a luz do mundo...” Então, se é por aí, tenho que correr atrás. Você sabia que o Ministério da Cultura tem projetos culturais para a divulgação da boa arte brasileira? Que a Lei Rouanet possibilita o levantamento de recursos junto a empresas privadas para a produção de CDs, DVDs, filmes de longa e curta metragem, exposições de artes, entre tantas outras possibilidades? Já imaginou que algumas empresas gostariam de se envolver no desenvolvimento de projetos sociais que levassem a arte às camadas menos favorecidas da população? Recentemente, alguns amigos partiram para uma série de shows na Europa subsidiados inteiramente pelo Governo Brasileiro, apoiados pelo Ministério das Relações Exteriores. Outro entrou numa van equipada com caixas, monitores e mesa de som de médio porte, e acompanhado de outros dois músicos, um técnico de áudio e um motorista, rodaram todo o nordeste brasileiro fazendo shows nas principais capitais, totalmente subsidiados pelo Ministério da Cultura. Outros amigos chegados fizeram um projeto musical para crianças carentes, baseados em percussão de sucatas e pandeiros. É claro que, para o desenvolvimento de projetos como estes, é preciso muito trabalho: arte de qualidade, um bom nome na praça (estar em dias com as obrigações fiscais), apresentação de um projeto que convença os financiadores de sua relevância para a comunidade, o cumprimento de uma série de exigências burocráticas, extrema organização nos gastos e nos acertos de contas. Mas vale a pena! É assim que os grandes nomes da MPB, os principais cineastas, os artistas plásticos, profissionais da dança, entre tantos outros, têm levado adiante a sua obra. Quem não planeja... simplesmente reage. Agora, quem crê que sua arte pode transformar o mundo e se propõe a planejar sua inserção no mercado artístico, precisa vencer o comodismo e a apatia que tem abatido a grande maioria dos artistas cristãos em nosso país. E olha que o Brasil precisa de gente que tenha propostas diferentes do que está por aí. Eu creio nisso. Temos uma excelente mensagem a comunicar. Falta-nos ousadia e planejamento. Vamos arregaçar as mangas? Carlinhos Veiga é casado com Cláudia Barbosa há 22 anos; é pai de Pedro, Anna Carolina e Cezar. Pastoreia a Igreja Presbiteriana do Lago Norte em Brasília. Ligado à missão Mocidade Para Cristo há mais de 20 anos faz parte do seu Conselho Diretor. Também participa na diretoria nacional da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Músico, compositor e violeiro, tem 6 CDs solos gravados. Seu trabalho é voltado ao resgate da cultura brasileira.
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