Quem não planeja... PDF Imprimir E-mail
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16 de janeiro de 2009

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Foto by Gutter (tinyurl.com/5us9s4)
por Carlinhos Veiga

Na década de 80, a Mocidade Para Cristo realizou um encontro de obreiros do continente americano que marcou a minha história. Além da comunhão com companheiros das três Américas, trocas de experiências, tivemos algumas aulas de reciclagem. Um delas tratava do tema Planejamento. A premissa básica era: “quem não planeja, vive sob reação”. Uma simples frase, mas que me ajudou e tem me ajudado na vida pessoal e no ministério.

Saí daquele encontro pensando sobre o que eu esperava alcançar com a minha vida e a vocação recebidas de Deus. Na época, liderava o grupo musical Expresso Luz e comecei a verificar que o nosso trabalho era a representação exata daquela frase. Não havia planejamento, por isso simplesmente reagíamos aos convites, às propostas dos outros etc. A partir daí começamos definir onde pretendíamos chegar com nosso trabalho musical.

Creio que é assim que muitos artistas trabalham. Sinto que somos muito acomodados e desarticulados. Estamos tão acostumados a reagir aos convites que já não mais sabemos onde pretendemos chegar com a nossa arte. Satisfazemo-nos com uma agenda cheia de apresentações e viagens,  que nem percebemos que o nosso trabalho mais se assemelha a um barco à deriva. E, via de regra, chegamos ao fim do ano com uma sensação de que não saímos do lugar, como se estivéssemos andando em círculos.

Tenho convivido com muitos artistas fora do meio evangélico – alguns bastante conhecidos – e aprendido com eles. Vejo que esse pessoal tem outra compreensão da sua arte. Reconhecem que são bons, que têm um trabalho relevante, mas principalmente que nada acontece por acaso. Esmeram-se em pesquisas, debruçam-se sobre livros e demais literaturas, vão atrás do conhecimento de elementos essenciais para a determinação da linha e identidade de seu trabalho; gastam horas a fio no estudo e desenvolvimento de técnicas, relacionam-se com outros artistas e trocam informações. Tudo isso é extremamente necessário. No entanto, não se esquecem de que o trabalho não pára por aí. Dedicam-se não só à elaboração da sua obra, mas também à sua produção e divulgação. Acho que é aqui que muitos de nós temos pecado.

Vejo gente que tem um trabalho atraente e de bom conteúdo, mas que não sabe o que fazer com o que tem em mãos. Alguns chegam a ficar amargurados quando não são convidados a dar uma “palhinha” nos eventos dos sonhos. Outros ficam comodamente assentados, aguardando os convites baterem em sua porta, ou tornam-se uns chatos, insistindo com os produtores de eventos cristãos, sem nenhum “senso de noção”, se autoconvidando de modo incisivo, quase implorando por uma participação. Desses, tem muita gente correndo léguas...

Vejo, por outro lado, bandas de igrejas tristes e sofridas porque não têm espaço em suas comunidades para mostrar seu trabalho. Antecipo minhas desculpas pela opinião sincera, mas acho que algumas bandas não têm, não devem ter, nem nunca terão espaços em suas igrejas... E sabe por quê? Porque seu estilo musical entra em choque com o modelo litúrgico vigente. E não vejo crise nisso.

Insisto: temos que planejar o que pretendemos com a nossa arte. Eu, por exemplo, já cheguei à conclusão que não quero fazer música gospel, ou seja, produto para o consumo exclusivo da igreja. Quero produzir algo que consiga vencer os muros da dicotomização evangélica. Digo isso porque vi Jesus agindo assim e dizendo: “vós sois o sal da terra... vós sois a luz do mundo...” Então, se é por aí, tenho que correr atrás.

Você sabia que o Ministério da Cultura tem projetos culturais para a divulgação da boa arte brasileira? Que a Lei Rouanet possibilita o levantamento de recursos junto a empresas privadas para a produção de CDs, DVDs, filmes de longa e curta metragem, exposições de artes, entre tantas outras possibilidades? Já imaginou que algumas empresas gostariam de se envolver no desenvolvimento de projetos sociais que levassem a arte às camadas menos favorecidas da população?

Recentemente, alguns amigos partiram para uma série de shows na Europa subsidiados inteiramente pelo Governo Brasileiro, apoiados pelo Ministério das Relações Exteriores. Outro entrou numa van equipada com caixas, monitores e mesa de som de médio porte, e acompanhado de outros dois músicos, um técnico de áudio e um motorista, rodaram todo o nordeste brasileiro fazendo shows nas principais capitais, totalmente subsidiados pelo Ministério da Cultura. Outros amigos chegados fizeram um projeto musical para crianças carentes, baseados em percussão de sucatas e pandeiros.
É claro que, para o desenvolvimento de projetos como estes, é preciso muito trabalho: arte de qualidade, um bom nome na praça (estar em dias com as obrigações fiscais), apresentação de um projeto que convença os financiadores de sua relevância para a comunidade, o cumprimento de uma série de exigências burocráticas, extrema organização nos gastos e nos acertos de contas. Mas vale a pena! É assim que os grandes nomes da MPB, os principais cineastas, os artistas plásticos, profissionais da dança, entre tantos outros, têm levado adiante a sua obra.

Quem não planeja... simplesmente reage. Agora, quem crê que sua arte pode transformar o mundo e se propõe a planejar sua inserção no mercado artístico, precisa vencer o comodismo e a apatia que tem abatido a grande maioria dos artistas cristãos em nosso país. E olha que o Brasil precisa de gente que tenha propostas diferentes do que está por aí. Eu creio nisso. Temos uma excelente mensagem a comunicar. Falta-nos ousadia e planejamento. Vamos arregaçar as mangas?

Carlinhos Veiga é casado com Cláudia Barbosa há 22 anos; é pai de Pedro, Anna Carolina e Cezar. Pastoreia a Igreja Presbiteriana do Lago Norte em Brasília. Ligado à missão Mocidade Para Cristo há mais de 20 anos faz parte do seu Conselho Diretor. Também participa na diretoria nacional da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Músico, compositor e violeiro, tem 6 CDs solos gravados. Seu trabalho é voltado ao resgate da cultura brasileira.

Comentários
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Maiana  - Ide e N fique!     |189.104.55.171 |16-01-2009 20:16:10
Super pertinente e coerente o seu texto!!Que sirva de despertamento e choque para muitos que possuem chamada e talento, contudo resumem-se a mediocridade das práticas cotidianas eclésiásticas-somente
a rotina da igreja. O Senhor já nos deu as Ferramentas , sabemo como usá-las mas não sabemos como;logo o planejamento.
Muito bOm!!
Qua o Senhor continUe a abençoa-lo, derramando gRaça e conheciMento!
Jacicleide Silva  - Excelente e pertinente matéria     |20-01-2009 14:19:43
Não podia vir em melhor hora, já que 2009 ainda é um recém nascido e o povo tem mania de planejamentos nessa época.
Em 05/01/08, fundamos a Cia de teatro da igreja, da qual sou a diretora. Tinha meu
objetivo para os primeiros 6 meses de vida, dentre eles participar de um Festival de Teatro Amador (fomos a única CIA cristã do festival).
Após 6 meses tiramos 1 mês de férias (a coisa tinha sido
puxada) e retomando ao batente sentei e fiz o Planejamento Trianual - 2008, 2009 e 2010.
Findo 2008, atingimos o planejamento quase que integralmente, também demos passos que não estavam previstos...
o de 2009 já vai sofrer alterações, mas temos um norte e isso basta.
Creio que planejar seja imprescindível, é inclusive um fator motivador para os integrantes do ministério, sem contar que
possibilita troca de lideranças sem maiores danos.
É, viver de reação não dá!!
Parabéns pela excelente matéria Carlinhos.
Dan Queirolo  - Planejar é prever     |27-01-2009 01:19:49
Concordo com tudo o que o Carlinhos disse. Também tenho visto muito disso, a falta de planejamento de ministérios e projetos, não só artísticos.

Há pouco tempo atrás assisti um vídeo do Rob Bell
que falava sobre focar, e creio que ao planejarmos, focamos nas coisas relamente importantes para o crescimento e desenvolvimento do que queremos, sejam obras artísticas, de cunho social, educacional
ou o que seja.

Precisamos dar mais atenção aos estrategistas do Reino e despertar o interesse de "crentes de banco" que tem dons específicos relacionados ao planejamento, incentivá-los e
ouví-los, além de nós, que temos que nos aperfeiçoar nesta área!!!

Muito bom o Artigo!!!
ricco  - Patrocínio do governo para ser     |189.38.213.254 |28-01-2009 19:52:34
Muito boa a reflexão. Creio que a música tem um importante papel no evangelismo. Mas quero discordar, ou entender melhor, esta questão de "ser sal" patrocinado pelo governo. Quem deve
financiar a obra é a Igreja, os cristãos. Se não fica estranho dizer: "Estamos aqui em nome de Jesus patrocinado pelo Ministério da Cultura". Fico imaginando a cruz de Cristo como um macacão e
fórmula 1 como diz um amigo meu.
Claro que nem sempe a igreja investe em evangelismo por musica e recorrer a patrocínios é a única opção.
No caso de projeto social até que é aceitável se a obra
evangelística estiver em algum momento, cumprindo o papel do governo. Mas não consigo ver a música assim. preciso aprender mais sobre isso...
Carlinhos Veiga   |200.101.51.224 |05-02-2009 15:57:46
Ricco, creio que os cristãos precisam concorrer "no mercado das idéias". Schaeffer era quem dizia isso. Enquanto deixamos de participar no circuito artístico nacional, tem muitos outros, com
propostas não menos "religiosas" participando. É só parar para ouvir as músicas nas rádios, assistir um filme nacional (ou mesmo estrangeiro), assistir uma peça teatral, um espetáculo de
dança, uma exposição de fotografias, que veremos que por trás da arte há sempre uma mensagem explícita, ou não, da crença de quem a produz.
Em meu artigo não estou falando de música e evangelização
no sentido comumente aplicado por nossas igrejas. Falo de inserção do cristão no mundo, trazendo o evangelho para a vida comum, se utilizando da arte para tal. Utopia? Creio que não!
Há alguns meses
atrás eu estava intercalando períodos de gravações num estúdio com um grupo musical cujo trabalho estava sendo patrocinado pela PETROBRÁS. Era um orçamento invejável. O grupo tinha um trabalho de
grande qualidade e havia surgido dentro de uma das comunidades da União do Vegetal. Em breve ouviremos falar deles. Enquanto outras fés são divulgadas, continuamos insistindo na mediocridade do
mercado gospel.
leonardo mariano  - projeto     |189.65.3.100 |31-05-2009 01:16:55
Caro Carlinhos,
Estaremos iniciando no final desse ano um projeto em nossa igreja de aulas de desenho técnico para a comunidade. De que forma poderemos introduzir música nesse projeto e transformá-lo
em algo atraente ao Ministério da Cultura?
Carlinhos Veiga  - Projetos   |189.74.179.183 |14-10-2009 12:26:40
Leonardo, temos feito um projeto com um bairro carente, próximo à nossa igreja, chamado "Canto Doce", onde são dadas aulas de canto coral e flauta doce para a meninada. Vez por outra eles vem
em nossa igreja cantar; já tiveram a oportunidade de se apresentarem em programações culturais da associação de moradores do próprio bairro. Até pouco tempo atrás as aulas de pandeiro eram mantidas
pelo Governo do Distrito Federal. Estamos pensando em inscrever o Canto Doce também na Secretaria de Cultura e conseguir mais recursos. As flautas foram doadas por uma importante escola da cidade. Ou
seja, a coisa é pensar e botar prá funcionar. Só precisamos nos despir daquela linguagem igrejeira e realizar um trabalho que atenda toda a comunidade, ao invés de só os crentes, entende? Assim vamos
aos poucos sendo relevantes para a sociedade em geral. Com respeito à evangelização, deixe que Jesus fale por nós, através de nossos atos, palavras, pensamentos...
Luiz Ray  - O ano da conquista   |189.50.2.2 |05-09-2009 20:06:31
Foi com esse tema que começei o ano de 2009. Digo, foi após receber um e-mail com palavras proféticas que começei a planejar o meu ano de 2009. O que colho hoje é justamente o início desse
planejamento que fiz.
Deus te abençoe meu irmão porque essa palavra veio pra confirmar tudo o que estou vivendo.
Carlinhos Veiga   |189.74.179.183 |14-10-2009 12:27:54
Valeu, Luiz! Deus abençoe sua jornada.
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Última Atualização ( 16 de fevereiro de 2009 )
 
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