Há qualquer coisa de podre na arte contemporânea PDF Imprimir E-mail
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16 de março de 2008

Imagepor Gerson Borges

Não gosto muito de ler polemistas, sobretudo cronistas de jornais.

Fico meio desconfiado de suas posturas e intenções. Esse papo esquerda-direita, embate ideológico (ou vaidosa tertúlia intelectualóide) do tipo Veja X Carta Capital já me cansou. Teimo, e isso pode ser o tal pecado do julgamento, em achar que é a falta de assunto que os motiva. Mas a "zica" e a ironia é que polemistas acabam por prestar bons serviços à nossa inteligência e fígado – pelo menos dou boas, muito boas risadas. Nos dão coceira mental. E são lutadores, devo admitir. "Polemistés", no grego, quer dizer guerreiro. Os caras gostam de brigar!

Um dias desses, pondo meu arquivo de recortes de jornais em dia, dei com os olhos num texto meio amarelado de Arnaldo Jabor (Segundo Caderno, O Globo, 11/11/2003), que me salvou a manhã tediosa. Eis um polemista! Nem Cony, nem Maynardi: Jabor. Que "Caros Amigos", "Piauí", que nada: Jabor! O rei da ironia debochada... e edificante! Nessa coluna escrita há seis anos, o cineasta-que-virou-colunista abre o coração(!) e conta de uma visita-retiro espiritual, quase, a Veneza.

"Depois de dois anos sem sair do país" - ele contava - "impregnado de todos os bodes do Brasil e do Mundo, pois minha profissão atual é ser esponja das notícias e dos fatos que elas escondem".

Eram os cinzentos dias pós-11 de Setembro. Jabor se refugia 

        na espantosa beleza da cidade e nas obras da Renascença que atulham aquela antiga República do comércio entre o Oriente e o Ocidente... Tintoretto, Veronese, Ticiano. Fiquei dias dentro da Scuola Grandi di San Rocco... Extasiado, purificado, renovado, caí na besteira de visitar um templo da Arte Moderna, a casa de Peggy Guggeheim, onde se empilham os primórdios da Modernidade artística do Século XX".

Sua conclusão é - pasmei - a minha:

         um show de contrastes que me deu uma certeza: há qualquer coisa de podre na arte contemporânea... há uma ausência de esperança que danifica a obra de arte. Isso mesmo: esperança".

Caramba, tenho um irmão-de-armas na minha dor de ver o lixo sendo tratado como arte: Jabor! Tenho um companheiro no mal-estar que invade ao dar uma olhadeda nas Bienais: Jabor! Ele, como eu, acreditamos na beleza e na esperança que uma obra de arte, simplesmente por produzir na alma da gente genuína fruição poética, o prazer do belo. Ele, como eu, cita Stravvinsky, enchendo a boca: “A obra de arte tem de ser exaltante”.

Sua crônica termina com uma pergunta contundente:

         Será que ‘o novo‘ não pode ser ‘um belo‘ que denuncie, com sua luz, sua esperança, a injusta vida?".

Jabor enfrenta, portanto, até mesmo a pergunta célebre de Adorno e de seus companheiros da Escola de Frankfurt, corrente filosófica de origem judaica-alemã: "Qual o sentindo de se escrever poemas depois do horror de Auschwitz?" O mesmo de sempre: fruição estética, denúncia (como o fazem também os profetas), expressão de toda gama de sentimentos (como o fazem também os salmistas), celebração e relevância.

Estou cheio da feiúra! Farto do cinza-escuro da fumaça escatológica de Blade Runner e seus congêneres menores, esse cinema do caos futurística e dos clichês baratos. Estou farto de Gerald Thomas e seu anti-teatro pseudo-cult. Estou farto do Trash (êta definição mais acertada) Metal e seus grunhidos sem sentido - e daqueles que chamam isso de música.

Música? Música é Bach, Jobim, Mozart, Lenine – melodia, harmonia, ritmo – a velha trinca. Gente, ruído não é música. Por favor! John Cage, Schoenberg, Miles Davis e toda gente do Free Jazz mais doido de tão outside que me perdoem! Quero melodias que me arrebatem! Estou farto dessa arquitetura besta das nossa cidades enfumaçadas do Novo Mundo Capitalista, que confunde gente com pombos. Não há beleza num pombal, por mais assimétrico que sejam suas formas. Estou até aqui dessa dança feia dançada por corpos idem de tão expostos e distorcidos, coreografia da decadência. Estou aturdido de tantos pseudos-Pollaks e seus quadros que, ok, se expressam algo do artista expressam seu ...vazio. Não precisa ser um retrato do Real, mas que não me angustie com o Nada. A Arte Moderna é velha como o Universo pré-edêmico: sem forma e vazia. Sem limites. Sem beleza. Estou enjoado dessa poesia do lixo, e olha que não sou contra a fragmentação de um Guimarães Rosa e de um Graciliano Ramos. Vejam como escrevem bem (bonito)! Poetas de verdade descrevem o lixo com luxo:

       O Bicho (Manoel Bandeira )

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

A contribuição de Schaeffer , ao tentar construir uma visão cristã do Ocidente e da Arte, pode ser até equivocada (senão ultrapassada) em alguns pontos (Brian McLaren, por exemplo, pensa assim), mas sua afirmação de que não há Graça na arte moderna é mais do que adequada.

A arte ficou sem Graça/graça, com maiúsculo e minúsculo.

Mas volto a Jabor: há mesmo qualquer coisa de podre na arte contemporânea. A poesia está mal das pernas. Vivemos em um mundo de prosa. Em um mundo de prosa, tudo fica prosaico, vulgar, material, sem elevação, corriqueiro, chão. A feiúra da Arte é o retrato do coração do homem de hoje, prosaico, feio, não-espiritual. O Real é belo, é Deus. Deus vive na realidade. Mas não temos olhos para ver o Real. O Belo é real. Minha querida Adélia Prado está certa: "só o visionário vê o real". Jabor, danado, que visionário é você! Deus o abençoe!

Gerson Borges é pastoetador - pastor, poeta e educador.

Comentários
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Neemias Santana  - Refletindo...     |16-03-2009 17:50:32
Tenho lá minhas questões quanto a NECESSIDADE do Belo na arte. Talvez eu esteja sendo demasiadamente frio ou retórico, mas não acredito que a arte tem de ser BELA, como se é entendido comumente.
Realmente entendo arte como expressão RE-contextualizada ou RE-configurada, saindo do lugar comum e rotineiro do artista e do público ao qual ele deseja alcançar.

Vale lembrar que a arte por vezes se
põe como reflexo de seu tempo ou mesmo aponta um tempo que está logo a frente. A arte Contemporânea, ainda, traz consigo o exercício de DES-romantização (aquela posição quase angelical e inalcançável
em que eram colocados os artistas clássicos), com o propósito de tornar a arte mais próxima - em sua estrutura lingüística e criadora - da realidade e alcance do cidadão comum. Entretanto, não posso
afirmar agora que esse objetivo já esteja alcançando êxito.

Sim! Parece haver uma ausência de esperança, e em muitos casos é proposital. Mas isso está relacionado a maior parte das estruturas do
conhecimento atual. É a filosofia contemporânea... e á corrida científica... é o exercício de valorização de linguagens artísticas como campo de conhecimentos singulares e interconectados... é a
IMINÊNCIA do Novo... é a NECESSIDADE de novas conexões e a exigência de respostas que as variantes anteriores já não dão mais conta. É a física Quântica... é a hibridização dos corpos... é o
Evolucionismo... é o Design Inteligente... é a expansão da tecnologia e da informática.

Talvez toda essa praticidade e urgência tenham colocado a arte contemporânea nesse ambiente na qual ela está.
Com referências de degradação e aparente culto a destruição.

Mas existe MUITA beleza na arte contemporânea. E nem sempre vai agradar a maioria, posto que ela NÃO está aí para agradar, mas apenas para
COMUNICAR, ALERTAR, PROFETIZAR, REFLETIR ou apenas CRIAR - sem grandes pretensões ou incentivos pedagógicos.

É complicado desenhar ou avaliar a arte contemporânea, pois ainda estamos vivendo o seu
desenvolvimento e experimentando seus desdobramentos. E mesmo "conduzi-la" à beleza parece pouco sensato, num mundo onde quase tudo é relativo, onde a única coisa que se garante estável e
imutável é a Palavra de Deus e o próprio Emissor das tais. A pergunta que fica no ar, é: qual beleza? Os padrões já são muitos.

Não quero aqui contra dizer os seus argumentos ou mesmo os do Jabor -
essa competência está longe de mim, e os tenho em alta referência. Mas como me entendo como participante e representante de parte de um segmento da arte contemporânea (no meu caso,a Dança
Contemporânea), me vi no direito de opinar. E o fiz com o intuito primordial de esclarecer para mim mesmo, essas questões sobre a pós-modernidade, que a mim também aflige e inquieta.

Podridão já
havia mesmo nas artes clássicas, na moderna e parece que também está na contemporânea. Suas configurações é que variam, assim como a percepção da mesma.
Gerson  - Conceito de BELO na arte   |200.161.61.18 |27-03-2009 19:30:35
Caro Neemias, obrigado pelo seu inteligente comentário!

Gostei de várias coisas que você argumentou, sobretudo a idéia da arte como " reflexo de seu tempo ou mesmo aponta um tempo que está logo a
frente. ".

Outra coisa, eu não afirmei que não há nada de belo na Arte Contemporânea; o coração do meu ( despretencioso ) texto - opinião pessoal, sublinho - é que há muita feiúra, ou seja,
ausência de compromisso estético ( e aqui parto da definição aristotélica : a ordem, a simetria, e a definição ) .

Tudo de bom, abraço do

Gerson

##
Neemias Santana   |29-03-2009 20:28:20
Mano Gerson,

Eu que agradeço pela atenção e gentileza em responder minhas inquietações.

BRIGADÃO!!!

Desculpa qualquer interpretação equivocada.


Abraço apertado!
Sonia   |189.112.176.1 |17-03-2009 07:12:43
Enquanto lia seu artigo sentia-me profundamente chocada. Tenho que admitir que a estética da arte contemporânea muitas vezes não me atraía, até que meus conceitos começaram a amadurecer.

Apreciar
um Cd de Jazz... Nossa, parecia impossível. Hoje, tenho alguns na minha lista de preferidos, e creio que contribuíram demais para o meu crescimento no conhecimento musical. Isso é só um
exemplo.

Gostei do que o Neemias escreveu acima. Concordo.

Agradeço ao Borges por levantar essa polêmica.
Gerson  - Esclarecendo, esticando o papo   |200.161.61.18 |27-03-2009 19:36:55
Querida Sônia,

Vários réplicas:

1. Também gosto de Jazz, muito !!! Coltrane é gênio, Charlie " Bird " Parker, Miles Davis e sua estética elecante, Evans, Pat Metheny... eu ( olhe bem, eu -,
pessoal ) não gosto muito do free jazz , aquela vertente que permite, mais - exige - o abandono de acordes, escalas, e métrica rítmica.

2. Você foi muito gentil em escrever.

Abração,

Gerson

##
Gerson  - Ainda sobre o Jabor   |200.161.61.18 |27-03-2009 19:38:25
Oi, mano, saúde!

Na verdade não curto o Jabor... mas esse texto dele me fez pensar.

Abraço fraterno, valeu o comentário,

Gerson

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Alann  - Gênio   |200.211.9.130 |17-03-2009 16:25:06
Jabor é um gênio e um analista de primeira,e o que podemos chamar de arte num mundo contemporâneo? Me dá um frio na espinha quando vejo algumas coisas por aí se denominando "arte" e na minha
opinião a arte é um meio para um fim e isso pode ser um tanto quanto perigoso pois se usa a "arte" para influenciar atitudes que nem sempre são relevantes, a verdadeira arte transforma,
vivifica a alma e nos desprende da realidade e nos leva pra uma viagem inesquecível do nosso intelecto. Acho que a arte gosta de um bom jazz, uma escultura abstrata, uma pintura de se ver e pensar, um
teatro intrigante de se rir e chorar. A arte nos leva pra uma realidade divina onde encontramos Deus e nós aplaudimos o artista mor.

Obrigado amigo Gerson pela reflexão!
Camila Hochmüller Abadie  - Sim, há algo de podre...     |201.37.122.129 |19-03-2009 11:59:38
Como o Neemias bem indicou, não se pode compreender a arte atual sem levar em conta o tempo atual. E, para isso, necessitamos atentar para o passado também. Neste sentido, descobriremos ainda mais
sentido neste sem-sentido contemporâneo. :)
Do Renascimento para cá, a transcendência tem sido paulatinamente expulsa dos mais distintos arraiais: da filosofia, da ciência, da arte e, um pouco mais
tarde, até da religião. Todavia, a transcendência, por não ser um conceito, mas sim uma realidade que nos habita sob a forma de carência, passou a invadir estas mesmas esferas das quais havia sido
expulsa, só que desta vez adquirindo as formas tidas como mais adequadas. Assim, em lugar de Deus, surgiu a razão como possibilidade máxima de resposta, sucedida pela experiência, que deu lugar ao
sentimento, que, por sua vez, abriu caminho ao niilismo que nos cerca.
Conseguir redescobrir/recolocar a transcendência divina no próprio Deus em meio a um mundo manifestamente niilista, eis o nosso
desafio.
Talvez o vazio, o sem-sentido seja o clamor mais veemente de um mundo sem Deus. Talvez...
Gerson  - O Niilismo da Arte de hoje   |200.161.61.18 |27-03-2009 19:50:05
Querida , obrigado por escrever !

Sim, maravilhoso comentário. A arte do séc xix em diante é, em muito, uma bacia de nilismo. Veja o que escreveu a portuguesa Eunice Cabral: " Niilismo é uma
perda de ideal pelo desaparecimento de uma referência desejável e mobilizadora, que se revela por uma atitude meramente contemplativa do mundo e pelo desalento. Significa também a aceitação do jogo
dos contrários de que o mundo é composto para o qual não se vislumbra uma solução satisfatória; significa também a negação das estruturas estáveis do ser num mundo tornado fábula. O niilismo é
parente de outros termos como perspectivismo e relativismo decorrentes da filosofia de Nietzsche. "

Não digo que eu não goste de nada da Arte Moderna; não gosto do seu niilismo, apesar de aceitar
como válida e necessária a denúnica que tais obras trazem consigo, como ( bem ) disse o Neemias Santana no primeiro comentário.

Felicidade,

Gerson

##
Leonardo Jr.     |200.249.35.71 |20-03-2009 13:20:43
Eu gosto muito de uma citação do Rory Noland a um livro do John Fischer chamado "O que é que estamos fazendo?" O Fischer diz o seguinte:

"A Arte muitas vezes parece irracional, porque o
coração está alcançando além da mente. Um museu de arte moderna expõe o coração alcançando além do que a mente conhece, tentando encontrar o significado de sua existência".

Só fiquei na dúvida
do que fazer com meus CD's do Pantera, Biohazard, Exodus, Testament... o.O
Gerson  - Arte é forma   |200.161.61.18 |27-03-2009 19:55:25
Caro Léo, valeu !

Bem, arte é forma. Não quero ser confundido ou confundidor, mal-interpretado no que argumentei : a fruição estética vem da forma, se bem que " a forma do conteúdo é o conteúdo
da forma " ( Walter Benjamim ).

Não, não jogue fora os seus cds citados - ouça-os novamente, em busca de ... beleza! Beleza não é algo piegas nem kitsch, como sabemos, um termo de origem alemã
(verkitschen) que é usado para categorizar objetos de valor estético distorcidos e/ou exagerados.

Gosto de... Rock ! Quando há poesia ( criação, invenção, noutras palavras BELEZA"

Força
sempre,

Gerson

##
Anônimo   |201.27.204.117 |22-03-2009 01:46:25
Jabor é preconceituoso e elitista. O mal dos polemstas, o maior mal, é verme a si mesmos com oos donos da verdade em todos os assuntos possíveis. Nem me refir oa esse texto comentado aí em cima - mas
me assusta que tantas pesoas concordem com ele e o admirem.
Gerson  - Oops, não acho que jabor é Deu   |200.161.61.18 |27-03-2009 20:01:13
Querido..anônimo,

Bem, Jabor não é Deus. Não queimo incenso a ele. Quase nunca ouço o que ele tem a dizer...é polemista, lembrqa? Apenas sugeri minha surpresa ao ler que

1. Ele deseja beleza na
arte ( e na vida ) - eu também;

2. Ele está em busca de uma arte que traga esperança dentro de si - ainda que falando de , pasme, coisas " feias ";

3. Não quis ser canonizado,aplaudido em
uníssono, não,não : opinei, refleti em voz alta, meu papel aqui no Portal.

4. Ah, quem é dono da verdade, eu ? Que nada! A verdade não é uma proposição filosófica , conceitual - a verdade é uma
pessoa , Jesus de Nazaré!

Força - e diga seu nome, pôxa :>)

Gerson

##
pedro borges     |201.27.204.117 |22-03-2009 01:58:31
"Em um mundo de prosa, tudo fica prosaico"
Que Marcelino Freire, Dalton Trevisan, Mario Benedetti, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos(citados por vc), Clarice Lispector, Rubem Braga, Milton
Hatoum e mais alguns não o ouçam.
O problema não e a prosa, mas os prosaicos que se meteram a escrever poemas e crônicas (videjabor e Piza),os antimidas que transformam o belo em chatice, elitismo e
preconceito.
Gerson  - O que é prosa, afinal?   |200.161.61.18 |27-03-2009 20:10:06
Bem, querido Pedro ( meu primo, Borges? )

" Prosa " na minha fala ( a partir das idéias do teólogo Walter Brugemann em Finally Comes the Poet: Daring Speech for Proclamation ) é figuração.
Não pense que não leia, goste de ( boa ) prosa literária - calro que sim ! Leio sem parar ! E muitos do que vc citou !

Pensei na prosa como imagem de um texto-obra bana, despida de irrelevância
artístico-existencial, SEM POESIA ( CRIATIVIDADE, NOVIDADE, INVENÇÃO POÉTICA ).

Texto de " prosa " , nesse sentido , é texto-morto, letra-morta, sem intenção poética.


" Aristóteles já
observava, em sua "Poética", que nem todo texto escrito em verso é "poesia", pois na época era comum se usar os versos até em textos de natureza científica ou filosófica, que nada
tinham a ver com poesia. Da mesma forma, nem tudo que é escrito em forma de prosa tem conteúdo de prosa.

O lingüista Roman Jakobson define "poesia" a partir das funções da linguagem:
"poesia" é o texto em que a função poética predomina sobre as demais. Assim, um texto escrito em forma de prosa pode ser considerado de "poesia", se sua função principal, sua
finalidade, for poética. A tal texto pode-se dar o nome de prosa poética ou poesia em prosa. Pois é "prosa" em sua forma; mas "poesia" em sua função, em sua essência, nos sentimentos
que transmite ".

( http://pt.wikipedia.org/wiki/Prosa )

Valeu demais seu comentário ...provocativo :>)


Abração,

Gerson

##
Pedro Borges  - Obrigado pela aula     |201.27.206.110 |30-03-2009 13:02:11
Então conhecer essa gente toda é muito bom. Melhor ainda ,saber lidar com as ideias deles em cada contexto, com precisão maior para evitar interpretações escorregadias. Mais uma coisa: nem só de
poesia vive a litratura (parece estranho, mas é verdade). Machado é muoto mais escritor, prosador, quase-filósofo, que poeta, assim como Rubem Fonseca e alguns outros.
Gerson   |189.54.160.143 |31-03-2009 22:35:29
Que bacana suas idéias, Pedro.
Valeu o carinho da trépica !

Abraço,

Gerson

##
Roberto Prado  - Puxa, que pena que pensa assim   |201.52.47.26 |27-04-2009 23:52:19
Gerson, mais uma vez me entristeço com o pensamento cristão sobre a arte contemporânea. Mas te agradeço pelo apelo à discussão (tão esquecida entre nós).

Arte contemporânea não celebra o feio porque
é "do contra" ou porque não sabe fazer o belo (é só pegar os estudos iniciais dos grandes e atuais artistas - acadêmicos impecáveis). Celebra o feio pra que o Belo (simétrico, áureo, romântico
ou quaquer coisa que depois de séculos já tenha se tornado concenso estético) não subjugue as demais expressões. Celebra o pobre pra que a nobre intenção (ou conceito) possa existir com liberdade, ser
reproduzida, democratizada, e afetar quem com o pobre material também convive. Celebra o feio porque de bonito já bastam os corpos esguios dos modelos fotográficos, as belas tomadas hollywoodianas, os
pares românticos das novelas das oito, as palavras doces dos livros de auto-ajuda...enfim, toda esta realidade, tão bem retratada, que de real pouco ou nada tem.

Bela é a alma que emerge das
experiências psico-artísticas de Ligya Clark. Belo é o movimento estonteante, as cores vibrantes, escondidas atrás dos trapos sujos e remendados do Parangolé de Oiticica, que só se revela quando o
homem se entrega de corpo, mente e coração.

Belo é o Cinema Novo, que influenciado pelo Neo-Realismo Italiano, com nada mais que uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, e muita luz dura, contraste
cegante, gente pobre, suja, em cima de uma terra desgastada e sofrida, nos faz fruir com profundidade de sentimento e provoca catarses e profusões de raciocínios sóbrios.

Não é este o movimento que
lançou o polemista citado no texto?

Gerson, fica aqui minha opinião. Obrigado, mais uma vez, pelo espaço.

Abraços.
Gerson  - Conceitos   |189.55.211.213 |28-05-2009 08:31:44
Querido Roberto, obrigado por comentar tão inteligentemente!

Eu entendo vc : a celebração do feio , do podre na arte pode ser mesmo um protesto a uma formatação do mundo sem sal de tão arrumadinha.
Vc tem razão. O que procurei fazer com esse texto foi leva as pessoas à reflexão sobre o sentido da beleza, não apenas na arte, mas na vida, na existência. Um problema teológico e filosófico que
emerge da discussão é " E Deus? Não é o Deus da Bíblia o Deus da beleza? Não seria BELEZA, para citar os caras da patrística, um dos nomes de Deus? Não seria a fragmentação na arte um indício
claro da fragmentação do pensamento e do ser-humano?

Quando falei da minha fome de beleza, falei da minha fome de Deus...fome pode ser " saciada " num hamburguer & fritas do MacDOnalds,num
boteco , depois de uns 4 salgados murchos e gordurentos, ou num prato de sushi, de baião de dois, num Talharin ao molho branco acompanhado de um belo ) vinho tinho...

Eu gostei DEMAIS da sua
participação inteligente e gentil .Muito obrigado!

Repito: minha relação com Jabor é mais irônica do que qualquer outra coisa. Vc tem razão, ele se vendeu...


Seu,


Gerson

##
L. Bruno  - quantas idéias saíram da toca!   |189.122.82.223 |02-05-2009 12:42:28
Gerson, parabéns pela maravilhosa provocação construtiva que seu texto traz para todos. Acredito, como vc, que a falta de esperança é um mote em muitas obras, ou muitas "ditas" obras de arte
contemporânea. As mostras de música muitas vezes são uma bela oportunidade que temos prá verificar o quanto nossos ouvidos aguentam propostas nem sempre criativas. Mas há e haverá sempre o belo dentro
do trash, o provocativo e criativo dentro do caos. É só lembrarmos que a Sinfonia Eroica de Beethoven, ao ser escutada pelos primeiros ouvintes, provocou muita polêmica, muitos afirmavam-na ruidosa,
rumorosa e por isto de menor valor ("teria Beethoven errado nas harmonias?"). Mas dentro do caos e da pobreza de recursos, como bem diz o Roberto aí em cima sobre o Cinema Novo, há uma ótica
de denuncismo e fatalidade que nascem já artísticas nas obras de um Glauber. A arte está não no objeto mas do que e como este é revelado, tal qual num polaroide. E Revelar, refletir já tem em si uma
dose absoluta de esperança. Ao menos de que exista alguém que enxergue além das doutrinas, das escolas, do senso comum. É entender o humano como potencialidade, oferecer ao semelhante a liberdade de
adorar, se intrigar ou detestar, mas de não se des-esperar diante da obra: afinal de contas a manifestação deve ser livre e onde há liberdade haverá sempre esperança.
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Última Atualização ( 29 de maio de 2009 )
 
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