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por Carol Gualberto
Encontro-me a duas semanas do término de um curso que estou ministrando na UFMG chamado “Composição Coreográfica”. Nas noites de algumas segundas-feiras, eu e oito alunos temos trabalhado uma questão importantíssima do processo de construção de um trabalho coreográfico que é a criação/pesquisa de movimentos corporais. Durante esse tempo, tenho aprendido muito na troca com esses alunos. Cada um com sua própria história. Mariana está no início de sua pesquisa de mestrado em Filosofia sobre performance, buscando vivências corporais. Salomão é estudante de Química e praticou dança de salão por sete meses. Professor desta dança, Robson tem uma escola em Belo Horizonte. Ana Maria é sua amiga e volta a se encontrar com a dança agora. Jefferson trabalha numa escola dando aulas de danças de rua. Maristela também tem uma escola e é professora de dança do ventre. Cynthia estudou jazz e balé clássico e trabalha com dança em sua igreja. Vinícius sempre estudou essas duas técnicas, é professor em uma escola de dança e aluno de Educação Física na UFMG. Oito alunos. Oito corpos. Oito danças. É, oito danças incrivelmente inspiradoras e convidativas. Digo assim porque, de fato, são indivíduos abertos para o novo, para a descoberta e que têm desenvolvido o caminho do sensível na construção de uma dança autoral e “democrática” por assim dizer. Autoral porque cada um deixa a sua marca em seus movimentos. Democrática porque revela que a dança é pra qualquer corpo, pra qualquer um que se aventure a se descobrir. Cada vez mais tenho aprendido que isso é possível. A dança abraça todas as formas, todas as limitações, todos os movimentos. O que nos cabe é trabalhar com o que temos; trabalhar com o nosso corpo de hoje. O corpo sempre será um local de percepções e descobertas; um lugar de transformação pelo diálogo entre as suas particularidades e as informações que nele chegam. No entanto, quando esse corpo se propõe a dançar, ele também é passagem porque dele essas informações transformadas seguem viagem para outros corpos – os daqueles que presenciam a sua dança. E tudo se transforma novamente! Parece viagem e, de fato, é. O corpo que dança nunca é o mesmo e sempre modifica. Modifica-se. Modifica alguém. Modifica algum lugar, algum estado, alguma coisa. E é a beleza desse percurso que tenho descoberto a cada aula dada, a cada ensaio, a cada pesquisa e apresentação! A dança transforma, muda. Nunca é a mesma e nunca gera o mesmo. Obviamente esse não é um processo fácil. Desde que nascemos, aprendemos formas para nos relacionarmos com nosso próprio corpo. Apreendemos modelos de movimentações; repetimos esses movimentos incontáveis vezes e, assim, vamos construindo um corpo com um vocabulário social “importado”, nos desapercebendo e esquecendo-nos de nós mesmos. Ainda que esse vocabulário facilite a nossa comunicação uns com os outros, sendo assim necessário, a sua apreensão de forma repetitiva acaba por limitar nossa capacidade expressiva. Temos tantos movimentos pré-codificados que “[...] dificilmente conseguimos criar novos movimentos ricos em expressividade”, disse, em seu livro “A Dança”, Klauss Vianna, representante importantíssimo da dança no Brasil. Essa é a razão da minha constante surpresa ao perceber corpos extremamente expressivos, não só os desses queridíssimos alunos, mas de tantos outros que tenho tido a oportunidade de ver e conhecer Dudude Herrmann, um outro ícone da história da dança no Brasil, tem, há muito tempo, “levantado a bandeira” da expressividade e da dança “democrática”. Em seus registros virtuais, disse que “Para dançar, é preciso estudar o mundo e estar disposto a perder o corpo, para reencontrá-lo liberto em sua potência de expressão. É preciso andar pelas linhas de fuga, reconhecendo que as coisas são cíclicas e estão em movimento. A arte é mutável, hoje eu tenho esse corpo, amanhã será outro” (extraído de http://www.dududeherrmann.art.br/). De fato, só dança quem se perde para se reencontrar num outro lugar, num outro corpo. Como disse antes, tudo muda. E a dança muda tudo. Tudo muda no corpo; tudo muda a partir desse corpo em movimento. Até a dança muda a todo instante e é essa uma das coisas mais admiráveis no fazer artístico. Saber que tudo está em constante mutação permite renovar-me sempre e aceitar meu momento, meu corpo e suas limitações, minha dança tal qual ela se revela hoje. Permite que eu (re)conheça a mim mesma e que me (re)conheça no outro, numa troca que, certamente, alegra o coração do Criador de tudo isso. Voltando à Dudude, ela disse ainda que "A arte representa uma mudança de espaço - os sentidos dilatam; vem o invisível. A experiência do tempo se modifica. Dessa forma, a função do artista é mudar o estado das coisas, fazer uma pedra virar um coração” (extraído de http://www.dududeherrmann.art.br/). Alterar o espaço. Transformar idéias. Corporificar sensações e sentimentos. (Re)Ligar-se com o outro. Buscar vida na dureza. É isso que tenho descoberto nos corpos dos meus queridos alunos. É esse movimento constante que busco. E é pra essa jornada que convido você, querido leitor! Dançando e criando, a gente sempre pode gerar coisas novas e mudar as que são como pedras. Torná-las coração. Coisa bonita, essa! Deixa de ser função; passa a ser parte bonita da gente. Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA, bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo). É integrante do “Catavento – Dança & Pesquisa”.
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