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por Taís Machado
Quem tem tempo, hoje em dia, para contemplar o belo? Estaria atrofiada nossa capacidade de nos comovermos diante da beleza? Não seria esse um sintoma de nossa alma enferma, confusa pelas pressões, ainda errante numa existência desconfiada? Contemplar belezas que nos cerca não seria uma forma de reconhecer a glória de Deus e adorá-lo? Como dizia João Calvino: "eis tantas belas luzes acesas no mundo para nos fazer ver a glória de Deus e parece que elas brilham em vão. Elas nos circundam com seus raios, mas a nós faltam olhos: somos cegos", e insiste: "não há lugar em que não apareça alguma centelha de sua glória". Ainda nas considerações a respeito da glória de Deus, o pastor e escritor John Piper coloca: "a cura da alma começa quando a glória de Deus volta a ocupar o seu lugar no centro, cujo resplendor atrai tudo para si". Pensar e experimentar a cura da alma permitindo que a glória de Deus ocupe seu devido espaço em nossa existência é algo a ser ponderado com maior cuidado, não? Piper ainda coloca: “quando contemplamos algo maravilhoso, existe uma cura maior para a alma do que quando contemplamos a nós mesmos”. Me parece que esse é um grande desafio para nosso tempo. Somos estimulados o tempo todo, e, praticamente já convencidos de nascença que somos o centro, que tudo deve girar ao nosso redor. Claro que tal convicção é muito discreta e até tentamos ser sutil ao expormos isso em nosso estilo de vida, contudo, deixarmos de cultivar a autocontemplação pode ser libertador. Quem está disposto a abandonar ídolos? Quem deseja ter seu olhar convertido para o outro? Quem quer (re)descobrir a glória de Deus tão rica em sua diversidade e manifesta tão criativamente? Quando falamos em glória de Deus podemos nos lembrar do salmista que, extasiado, diz: “os céus proclamam a glória de Deus” (Sl 19.1). E, sem dúvida, relembrar o que a apóstolo Paulo aponta quando fala do “conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (II Co 4.6). Olhar Jesus, nos textos bíblicos, é também pensar naquele que contemplava os lírios do campo, os pássaros, as sementes, as árvores, os céus, o mar; que desenhava na areia, apreciava o sabor do bom vinho e a beleza quase escondida de uma singela refeição. Eu tenho uma consciência, ainda que parcial, do quanto no atropelo da vida ignoro ou negligencio - para não dizer desprezo - a beleza da criação. Manifestações graciosas do Criador, inclusive, por meio do ser humano, que nem sempre o reconhece e o faz como glória de e para Deus. Peço ao Espírito amoroso e belo de Deus que me traga sensibilidade e cuidados cotidianos para reconhecer e glorificar a Deus. Trazer-me salmos contemporâneos, fazer-,e mais parecida com Jesus. Como diz Rubem Alves: “a comoção diante da beleza tem o nome de ‘alegria’.” Eu quero viver essa alegria e reparti-la com os que me cercam. Há tanto o que ser descoberto. Há tanta celebração que pode acontecer. Há um gosto no viver comunitário que vem da partilha, há encontros que tocarão nossa alma e se darão simplesmente se tivermos atentos. Quer ver mais fotografias, quadros, exposições variadas, espetáculos de dança, teatro, assistir a mais filmes, ouvir mais música, ler mais poemas, conhecer mais da literatura, etc. Deixo algo do Mario Quintana, que faz cócegas em minha alma e me ensina com seus versos... O POEMA Um poema como um gole d’água bebido no escuro. Como um pobre animal palpitando ferido. Como pequenina moeda de prata perdida pra sempre na floresta noturna. Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema. Triste. Solitário. Único. Ferido de mortal beleza. Eis minha oração: Senhor, educa meus olhos e faz-me uma filha que contempla tua glória e por isso mesmo te adora. Tais Machado é Psicóloga e docente em diversos Seminários Teológicos, é Secretária Nacional de Capacitação da ABUB – Aliança Bíblica Universitária (ligada à International Fellowship Evangelical Students), integrando a executiva nacional da organização
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