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por Gérson Borges
Tenho uma fobia, um pânico - e eu preciso confessar de vez, admitir, ficar livre (ou tentar, ao menos): tenho medo de ficar louco, medo da loucura de artista. Você não sabia? De Baudelaire e suas "Flores do Mal" aos desvarios coloridos de tinta de Pollock, da efervescência alucinada dos concertos e da vida de Mozart à depressão e ao alcoolismo de Lima Barreto, dos sons revolucionários da Stratocaster distorcida e deliciosamente insana de Hendrix ao suicídio de Ernest Hemingway e Kurt Cobain há uma marca, um traço comum nessa linhagem de gênios da pintura, literatura, teatro, música – todos foram meio ou muito loucos, todos perderam um parafuso na Vida da arte ou faltou-lhes um parafuso na Arte da vida. É preciso ser mesmo meio biruta pra criar coisas como a 9a Sinfonia (Beethoven), o "Guardador de Rebanhos "(Fernando Pessoa), "Kind of Blue" (Miles Davis), "Grande Sertão: Veredas" (Guimarães Rosa), "Tempos Modernos" (Chaplin) e "Em busca do tempo perdido" (Proust). É até meio simples de se pensar: um ser humano comum e medíocre tem mais o que fazer – carimbar papéis na firma, cozinhar o feijão, levar o filho pra escola, coisas assim, prosaicas, rotineiras, nada empolgantes. Quando assisti ao filme "As horas", na estupenda interpretação de Nicole Kidman (piradinha da silva, essa talentosa figura – veja o botox) para a escritora inglesa Virgínia Woolf (doida varrida, por sua vez), tive a mesma sensação de angústia e temor, apesar da beleza do filme, que me sobreveio com Bird, uma formidável biografio de Charlie Parker (pinel total), do sempre surpreente Clint Eastwood: que doideira! Sempre que leio a biografia de um músico, de um artista (li recentemente "Travessia", sobre Milton e o Clube da Esquina e "Gonzaguinha, Gonzagão", sobre pai e filho), não obstante o exercício pastoral e espiritual e a fruição estética deliciosa da leitura, tenho alguma azia ou incômoda insônia. “Será que essa sombra cobrirá a minha cabeça?", pergunto-me no meio da madrugada, hora em que a fobia ataca. “Deus, que eu seja medíocre e morra de velho! Que eu veja os filhos dos meus filhos e nada de manicônios, sanatórios e asilos do tipo Retiro dos artistas. Não, Senhor, por favor, não e não!" Agora o pastor falando: há pelo menos três areas nas quais o artista se perde e revela sua dificuldade em lidar com a realidade (marca de humanidade caída, eu sei, mas amplificada da situação do surto). A primeira é a coisa da grana. Os caras se perdem com a força do dinheiro. Dinheiro, diz Richard Foster, "não deve sem ser adorado nem desprezado. Dinheiro é um poder, traz consigo luz e sombra". Jesus chegou a dar um caráter pessoal ao Dinheiro ao chamá-lo de Mamon, uma entidade, um deus. O artista endividado, fazendo de manhã pra comer à noite, é um clássico. Outro item nessa descrição – que é minha, pode ser que você não concorde, e se você é um artista banal, com certeza discordará – é o uso do tempo. Conhece algum músico (acima da média, gente, eu tô falando dos gênios) que cumpra horários, arranjadores que não percam o deadline, atores com o texto pronto três meses antes da estreia, escritores que durmam oito horas por noite (a propósito, comecei esse texto antes das seis da matina…), gente que não olhe pro relógio, agenda e calendário com certo ódio? Chamar o artista de indolente, de indisciplinado, de preguiçoso é um clichê tão gasto que vou ficar na minha, mas que Kronos o devora, devora. “Vida, louca vida", já cantava o Lobão (100% Gadernal esse), “vida breve/Já que eu não posso te levar/Quero que você me leve”. Ah, sim, você lembrou de Zeca Pagodinho, um estranho nesse ninho – agora já foi: "Deixo a vida me levar/Vida leva eu". Administração de grana, de tempo, isso não é coisa para os gênios da criação! E para que minha lista não fique ou cínica ou eivada de (falso) moralismo, caro leitor (agora soou meio Machado de Assis, o bruxo/louco-mor das nossas Letras), melhor fechá-la falando da imensa dificuldade que o artista tem de cuidar de si mesmo, sua saúde bio-psíquico-espiritual, da sua família… Aliás, quando um deles casa e descasa em menos de três meses, a gente diz logo “Coisa de artista! Casamento de artista é assim mesmo") Elis é um (anti) exemplo nesse item: vendo outro dia o DVD "Ensaio" com a fabulosa baixinha, nossa inigualável intérprete, a maior, fiquei meio triste ao constatar que a grande cantora não conseguir segurar a onda da mãe: ser cantora assim, nesse nível, é quase desistir de ser mãe. Poucas conseguem. As exigências da rotina são demais pra uma cabeça só. Não foi do nada e à toa tanta droga, triste mesmo o fim da querida Elis numa overdose… Eu estive numa conferência sobre Henri Nouwen, na Universidade de Toronto, e assisti a uma palestra sobre "A espiritualidade de Vincent van Gogh", tema de um curso que Nouwen dera em Harvard, inclusive. A conferencista, ex-aluna de Nouwen, encheu meu coração e emoção e os meus olhos de muitas lágrimas com a narrativa da busca do pintor holandês em ser: ser gente, ser artista, ser pastor. Van Gogh era um gênio. Não conseguiu amarrar as três coisas. Desistiu. Surtou. A loucura é uma defesa. Quando a realidade é pesada, a arte. Quando é pesada demais, a loucura. Tem gente que junta as duas saídas numa só. Van Gogh teria dito: "já que não pude pregar o evangelho, vou pintar o evangelho”. Bem, apesar de amar profundamente sua obra e respeitar igualmente sua vida, prefiro pregar. Aliás, preciso terminar: tenho de ajudar minha mulher com os meninos, bater o cartão no Gabinete Pastoral, lidar com a preparação do Culto de Domingo. Ih, lembrei de contas a pagar ainda hoje e que estou na escala de fazer o café da manhã. Se me dão licença… Como faz vários dias que não pego no violão, um a mais me fará assim tanta falta? Gérson Borges é muito doido: tenta ser a um só tempo pastor, poeta e educador. Veja o tamanho do seu desvario artístico no seu novo CD, "Nordestinamente".
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