Arte e Missão Integral PDF Imprimir E-mail
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17 de outubro de 2009

Image por Carlinhos Veiga

 

Engana-se quem acha que Missão Integral é uma esquisitice inventada por uns teólogos da América Latina. Missão integral, como muito bem definiu a Rede Miquéias, “não é somente uma questão de que o evangelismo e o envolvimento social devam ser feitos concomitantemente. Ao invés disso, na missão integral a nossa proclamação tem conseqüências sociais ao motivarmos as pessoas a amarem e se arrependerem em todas as áreas da vida.

O nosso envolvimento social tem conseqüências evangelísticas ao testemunharmos a graça transformadora de Jesus Cristo. Se ignorarmos o mundo, traímos a Palavra de Deus que nos envia para servir o mundo. Se ignorarmos a Palavra de Deus, não teremos nada para levar ao mundo. A justiça e a justificação pela fé, o louvor e as ações políticas, a transformação no âmbito espiritual, material e pessoal, e as mudanças estruturais devem caminhar juntas. Assim como vimos na vida de Jesus, o ser e o fazer estão no âmago da nossa tarefa integral.”

René Padilla, um dos pais dessa teologia/movimento, sempre enfatizou em seus escritos e palestras a encarnação de Cristo no âmbito da missão, ou seja, que a Palavra de Deus se fez homem: aculturou-se, já que o homem é um ser cultural. Assim Deus se colocou ao alcance dos homens. Devemos considerar a importância do contexto histórico, político e social da vida e ministério de Jesus, bem como seu envolvimento com todas as esferas do ser humano.

A conseqüência clara disso é que não é possível entender nem comunicar o evangelho sem referência à cultura. Agir assim é o mesmo que mutilar a Palavra, reduzindo-a a uma mensagem tendenciosa e de alcance apenas espiritual, de ação estreita, sem relevância para a complexa vida do ser humano.

O evangelho é o resgate da humanidade e, com ela, da história, da cultura, da economia, da política e das relações sociais. O Reino de Deus é ao mesmo tempo o resgate do homem e a instauração de uma nova sociedade.

“Quando a igreja leva a sério o fato de que foi chamada para ser ‘boas-novas’ e que cada aspecto de sua vida e missão pode contribuir, direta ou indiretamente, com a evangelização e quando tira vantagem do potencial evangelístico de tudo que ela é e faz, então a igreja experimenta uma renovação extraordinária e causa um impacto permanente em seu contexto sociocultural”. Orlando Costas

Em suma, Missão Integral tem a ver com inserção total na sociedade. Nada pode escapar aos olhos e à ação da igreja, como nada escapou aos olhos e à ação de Jesus.

 

E o que isso tem a ver com a arte?

Penso a arte não como um fim em si mesma. Há quem a veja assim. Gosto de vê-la como parceira na realização da missão – que é o âmago da vida de toda a igreja, ou melhor, de todos nós – o Reino chegou! Sob a perspectiva da missão integral devemos compreender a arte como uma expressão engajada e oferecida para a sociedade. Uma linguagem comunicada para a humanidade e não uma linguagem alienada da vida em sociedade. A arte que serve à missão é a arte que nasce na cultura, entre o povo, linguagem prenha de inquietudes e emoções.

A música cristã, principalmente a que se ouve na igreja hoje, é basicamente “transplantada” de outras culturas e outros contextos históricos, quer nos meios protestantes históricos quer nos pentecostais ou nos neo-pentecostais. A ênfase destas, via de regra, recai sobre assuntos escatológicos e a piedade individual. Há uma completa alienação em relação aos assuntos do cotidiano e as questões sociais, políticas, ecológicas, etc.

Precisamos caminhar no sentido de produzir uma arte que seja o resultado de uma reflexão sobre os aspectos da vida comum do homem do século XXI, sob uma perspectiva cristã e não meramente uma reflexão religiosa.

Fico imaginando o quanto poderíamos contribuir para a sociedade com manifestações artísticas que tratassem de temas como ecologia, violência, segregação racial, política, relações conjugais, namoro, criação de filhos, governo, justiça social, paz, ocupação das terras e tantos outros assuntos que são temas da Palavra de Deus. No entanto, ainda reduzimos o Evangelho a salvação de almas e a adoração, no sentido mais estreito que se possa imaginar, da alienação emocional e do distanciamento da vida como um todo.

Esse é um tema muito abrangente. É necessário que os artistas cristãos se abram para essa realidade.

 

Carlinhos Veiga é casado com Cláudia Barbosa e é pai de Pedro, Anna Carolina e Cezar. Pastoreia a Igreja Presbiteriana do Lago Norte em Brasília. Ligado à missão Mocidade Para Cristo há mais de 20 anos, faz parte do seu Conselho Diretor. Também participa na diretoria nacional da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Músico, compositor e violeiro, tem 6 CDs solos gravados. Seu trabalho é voltado ao resgate da cultura brasileira.

Comentários
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Adriana de Jesus Nunes  - Perfeito!     |189.98.147.228 |18-10-2009 01:22:10
Interessante como textos do Carlinhos Veiga expressa a mais pura realidade!
Me identifico com cada matéria.
Anseio por ver uma mudança radical e impactante nas artes e artistas cristãos!
Que venha
essa consciência e ação!
Darlan Carling Von Dollinger  - Conclusão muito persistente,   |18-10-2009 16:38:52
avatar realidade ainda assim muito distante.

Apenas me pergunto o que ainda no impede de testemunhar tal mudança...
DANILO FERREIRA GOMES  - ISSO É EVANGELHO PURO E SIMPLE   |200.187.6.126 |19-10-2009 12:36:08
Estou estudando a teologia da missão integral para a produção da minha monografia de conclusão de curso teológico e a cada dia vejo o quão vasto é o tema. O texto do Carlinhos está fantástico, me fez
amar ainda mais essa teologia, que aliás, não é apenas mais uma teologia, é o Evangelho puro e simples.
Inerves Filho  - Arte e Missão Integral     |161.148.85.218 |28-10-2009 10:31:05
Com relação à música tocada na igreja, não vejo inadequação alguma, pois esta tem um propósito específico de tocar o coração do Pai, trata-se de música devocional. Acredito que a arte dos cristãos
deve ser fomentada, mas contextualizada. Os temas espirituais, como ditos "escatológicos e relativos à piedade individual", não me parecem inadequados ao espaço onde são divulgados, nas
igrejas. Não vejo como reducionismo tocá-los na igreja, acredito que nós cristãos, ao nos dotarmos de conhecimento, habilidades etc, e colocarmos isto em prática, exercemos influência
"outside", nos locais onde passamos a maior parte de nossa vida. Quando vemos Marina Silva (uma cristã conhecida) com o seu discurso ecológico ou um irmão não conhecido na mídia, que produz
sua arte ou exerce outra profissão, compreendendo a total ligação de Deus a todos os temas da vida do crente, e deixando-o mais uma vez tocar a sua vida, devotando-os ao Autor da Vida, sabemos que aí
está alguém que tocará o mundo. Disso decorre, concordo, que as questões artística, cultural, profissional - meios - serão secundárias, pois novamente veremos o Pastor a usar uma ovelha modelo para
atrair outra.
Acredito que o evangelho, quando dá tempo, alcança a história, a cultura, a economia, a política e as relações sociais. Eu chamaria isso de a utopia realizável do evangelho, pois na
maioria das vezes trata-se de fruto a ser colhido nas gerações posteriores de um novo convertido. O evangelho atravessa todos esses temas, mas há uns com maior prioridade (eu escolheria primeiro as
relações sociais), e nós, por não termos tanto tempo, escolhemos pela ordem os que serão assuntos de nosso discurso e prática.
Reducionismo vejo-o na praxis da influência, não por causa de uma visão
distorcida da arte (entendendo-a como manifestação do caráter transformador do homem, que a partir de recursos a priori, processa e produz o novo), mas por falta de fé, por não crer no Poder
transformador do Espírito Santo "ex-nihilo".
Confesso que o mesmo evangelho que nos libertou muitas vezes tem sido uma barreira para tocarmos os mais distantes, devido a interpretações
errôneas e à nossa covardia de dizer que "não é bem isso". Nossa capacidade criativa tem sido negligenciada, a fim de mantermo-nos no quadrado da adequação (recebemos um título e algemas para
os pés, quando esses deveriam estar livres - preparados para o evangelho da paz).
Saudações.
Dan Queirolo     |201.86.10.214 |03-11-2009 16:23:37
Não é tão distante da nossa realidade assim!

Nossa realidade se traduz em vários fatores, entre eles as pessoas ao nosso redor. Se você começar a viver e disseminar tal forma de viver o evengelho,
de forma completa, como na missão integral apregoa, você verá o quanto as pessoas estão sedentas pela simplicidade.

Espero que todos que lerem este artigo possam parar de reclamar de que isso não
acontece em sua cidade ou país, e comece a fazer algo para mudar a situação!

Existem muuuuuitas pesoas fazendo a diferença por aqui, se não tem por aí peça ajuda! Alguém vai dar uma força!
Carine Costa  - DEMAIS ESSE ARTIGO     |189.99.109.104 |29-12-2009 02:55:08
Amigo autor...
Que artigo, eh bom saber que nossos questionamentos nao sao solitarios....Isso mesmo entendo e acho que devemos entender a cultura local, nossa eclesiologia missional so vai ser
entendida com uma inserçao cultural...desculpa a ausencia de acentos pc novo...valeu...
Tiago garrido  - como fazer?     |189.24.57.153 |13-07-2010 17:46:42
Concordo com o texto sobre missão integral e sobre a desconexão da igreja com a realidade que a cerca. Embora penso que precisamos discutir como fazer missão integral. Até porque dentro do meio de
missões há uma cultura de valorização do líder carismático e administrador. Concepção distante da realidade que exige a construção de plataformas de inovação e o estabelecimento de redes
colaborativas.
Abraços
Andressa Reis  - Evangelho Genuíno   |187.58.55.214 |04-07-2011 14:16:29
Vejo essa matéria como a EXPRESSÃO PURA E SIMPLES do Evangelho de Cristo, às vezes fico pensando como Cristo viveria nos dias de hoje? Trancafiado dentro das quatros paredes, ou sendo manipulado de
como proceder pq alguns religiosos ordenam? A lei de Cristo é o AMOR. Ele em sua época revolucionou tudo, a cultura principalmente, ia contr a cultura de fariseus religiosos... Penso que Cristo
vivendo hoje em dia faria a mesma coisa, nãos e conformaria coma fome, a injustiça, a violência.. enfim penso que devemos buscar a implantação do REINO DE DEUS através de Frutos de Justiça! e da Fé
que atua por meio do Amor!
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Última Atualização ( 17 de outubro de 2009 )
 
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