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por Taís Machado
Falar em tempos de paz num contexto de tanta violência, variadas guerras “semidisfarçadas”, me parece oportuno. As abordagens podem ser diversas. Poderíamos até começar procurando definir a que paz estamos nos referindo. Contudo, gostaria de comentar brevemente sobre o filme brasileiro, do diretor Daniel Filho, tendo Tony Ramos e Dan Stulbach nos papéis principais (respectivamente, Segismundo, interrogador alfandegário e ex-torturador da polícia política de Getúlio Vargas, com o ex-ator polonês Clausewitz, confundido com um nazista fugitivo). Parece-me que a escolha desse título – “Tempos de Paz” (estreou dia 04 de agosto de 2009) - tem a ver mais diretamente com o contexto vivido em abril de 1945, quando os combates da 2a Guerra Mundial já cessavam na Europa, mas o Brasil ainda estava tecnicamente em guerra. Segismundo naquele momento estava como chefe da imigração na Alfândega do Rio de Janeiro. No entanto, para ele, o fim da Guerra, por ironia do destino, é o que lhe tira a paz. Ele teme a vingança de seus ex-prisioneiros. Antes de deixar seu trabalho na alfândega, porém, surge a desconfiança de que o imigrante polonês Clausewitz possa ser nazista. Após interessantes diálogos lhe é dada a chance de conseguir o visto de entrada no Brasil se conseguir fazer o durão torturador Segismundo chorar. Além da dificuldade da língua, Clausewitz diz que nada mais tem a não ser suas lembranças, e elas não são positivas; antes, fazem-no questionar sua existência, os sentidos, sua vocação. Pra mim, sobretudo, trata-se de um belo filme sobre vocação, além, é claro, de também dizer da força da arte, que nem sempre se entende, mas se pode sentir e ela é avassaladora sobre nós. Tenho pensado que, para uma geração à deriva, a palavra vocação desabrocha com força: é como se fosse uma bóia, uma tábua de salvação no alto mar. Não resolve por si só, mas ela pode ser o que dará sustentação, uma sobrevida, trará alguma esperança, auxiliará até um encontro maior. Tenho considerado o quanto descobrir a própria vocação e realizá-la no cotidiano pode, de certa forma, trazer paz. O teólogo e escritor escocês William Barclay (1907-1978) afirmou que “há dois grandes dias na vida de uma pessoa – o dia em que ela nasce e o dia em que descobre por que nasceu”. Na fé cristã descobre-se que em última análise todos fomos criados com uma vocação maior e comum, uma que nos defina na criação – feitos para adorar ao Criador. E na relação com Deus percebemos não uma imposição, mas uma descoberta de vida e paz, onde diante de seu amor e graça nos rendemos em adoração. O famoso pintor Pablo Picasso disse certa vez: “Nós, artistas, somos indestrutíveis. Até numa prisão ou num campo de concentração eu seria onipotente no meu mundo da arte, mesmo que tivesse de pintar meus quadros com a língua molhada no chão da minha cela”. Para Picasso responder à sua vocação, manifestando sua arte, é algo que o faz viver ainda que nas circunstâncias mais desfavoráveis. Também podemos refletir o quanto sua vocação tem a ver com sua identidade, em como ele se enxerga e a força que isso tem dentro dele, ao ponto de sentir-se onipotente em seu mundo artístico. Isso me faz lembrar também muito da história de Davi (aquele da Bíblia) que faz do seu cotidiano salmos, que bem expressa a linguagem da alma, que com a música e a poesia se alegra, chora, lamenta e se encontra. Em nossos dias tenho o privilégio de conhecer e acompanhar muitos queridos que me abençoam com variadas manifestações artísticas. Jorge Rehder foi um desses que entra na nossa vida pra nos enriquecer, para nos lembra o que realmente vale, vem pra nos ajudar a admirar a beleza que nos cerca, pra nos conscientizar da nossa vocação comum e especial – adorar a Deus. Sua vida nos mostrou isso, seu legado continuará a nos ensinar. Abrir novos espaços para ponderar a respeito, para partilhar dúvidas e descobertas, para celebrar a vida e suas belezas é algo que todos podemos fazer. Esse portal tem se prestado também a isso. Meu reconhecimento e gratidão ao casal Whaner e Ana Claudia. Vamos trazer mais gente pra roda... Tais Machado é psicóloga e docente em diversos Seminários Teológicos. É Secretária Nacional de Capacitação da ABUB – Aliança Bíblica Universitária (ligada à International Fellowship Evangelical Students), integrando a executiva nacional da organização
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