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por Carlinhos Veiga
Era quase fim de tarde, quando eu me assentei ao lado do seu Toninho para prosearmos um pouco. O cenário era a fazenda dele, pouco mais de 20 km de Pirenópolis, em Goiás. Ao nosso lado, corria água cristalina nos cochos de madeira, movendo o monjolo que socava o milho intermitentemente. A passarada revoava lindamente ao redor. - Seu Toninho, como foi que começaram as Cavalhadas em Pirenópolis? – perguntei. - Ah... isso já faz muito tempo. Desde 1820, trazida pelos jesuítas, para catequizar o povo e os escravos da região – respondeu prontamente. - E desde então nunca mais deixou de acontecer uma festa dessas? - Não. Esse ano vamos comemorar a 192ª edição do festejo – respondeu com um sorriso. - É a encenação de uma guerra, não é? – insisti. - Sim, de uma guerra dos tempos de Carlos Magno, entre os mouros e os cristãos. Os cristãos são os cavaleiros de azul e os mouros são os de vermelho. São doze de cada lado: o mais importante deles é o rei, depois vem o embaixador e na sequência, dez cavaleiros. - E o senhor participa desde quando das cavalhadas? - Comecei há vários anos. Primeiramente fui um cavaleiro cristão. Fiquei uns dez anos nesse posto. Depois, me convidaram a ser o rei dos mouros. Já tem uns quinze anos que faço esse papel – disse compenetradamente. - Que coisa interessante... Então o senhor já conhece essa encenação de trás pra frente e de frente pra trás – brinquei. - É verdade... respondeu com um sorriso, mostrando os dentes, e completou – todo ano eles vencem a gente. - Então há quase 190 anos a história se repete? A briga acontece e os cristãos vencem? - Isso mesmo! E depois de vencidos, somos novamente batizados. Porque os mouros, depois de vencidos, se convertem ao cristianismo e são batizados pelo padre - que entra de batina no campo e batiza todo mundo – respondeu. - Que coisa... todo ano o senhor é vencido e depois batizado... - Isso mesmo! Esse diálogo aconteceu há alguns dias atrás, durante os intervalos de gravação do nosso DVD em Pirenópolis. E as palavras do seu Toninho não saíram mais da minha cabeça. Todo ano, nas cavalhadas, a luta acontece, todo ano os cristãos vencem, todo ano os mouros se rendem e são batizados. Fiquei pensando como isso pode acontecer há tanto tempo, sempre se repetindo, e cada vez mais lotando o campo das cavalhadas de gente vinda de várias partes do país e do mundo para assistir a essa encenação. Seu Toninho, o rei dos mouros, já vai pra guerra sabendo que será vencido. Veste-se de roupas luxuosas e ornamentos de cavaleiros, monta seu cavalo todo paramentado para repetir a mesma encenação aprendida com seus antepassados. Fiquei pensando. Assim também é a nossa história. As lutas se repetem. Quase sempre são as mesmas, com algumas variações. Todo dia lutamos a mesma luta, vestimos as mesmas roupas de guerra e nos armamos com as mesmas armas. São lutas intermináveis. Algumas bastante pesadas, outras um pouco mais leves. Mas são guerras desafiadoras. Guerras contra nós mesmos, contra nossa avareza, contra nossa mesquinhez, contra o mal que fugimos o tempo todo, mas que não deixam de nos perseguir. Lutas contra a solidão da alma, contra nossa maldade. Lutas externas a nós, pela sobrevivência, pela harmonia dos relacionamentos, pelo desafio de sempre crescer e de não se entregar. Lutas íntimas, externas, contra o mundo, contra o sistema, contra nós mesmos... Lutas incessantes. Vez por outra algumas delas são vencidas. Quando menos esperamos, obtemos vitórias. Aliás, somos agraciados por Deus com vitórias vindas da parte d´Ele. E nos sentimos animados ao perceber que, aquele mal, aquele inimigo, fora vencido, que conseguimos nos sobrepor a ele, e que se rendeu. Só que um pouco mais e o novo período de tempo chega. E com ele ressurgem as mesmas lutas, contra os mesmos inimigos, ferozes e traiçoeiros. Mais uma vez, a vida repete a arte. Ou a arte é uma descrição da vida: de tempos em tempos ressurgem as mesmas lutas. Graças a Deus pelas vitórias que por um espaço de tempo nos dão certa trégua para o novo enfrentamento. Pelo menos por um pouco mais de tempo, até que venha o dia onde a vitória será completa e essa guerra, repetitiva e exaustiva, não precise mais ser lutada. Como espero esse dia... Dia em que a vitória, de uma vez por todas, chegará. Quando o Cristo vencedor nos dará descanso completo de todas essas intermináveis lutas. Ah! Não poderia me esquecer: os festejos de Pirenópolis, que incluem as cavalhadas, foram no último dia 15 de abril de 2010, registradas como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, no Rio de Janeiro. Carlinhos Veiga é músico, compositor e violeiro. Tem 6 CDs solos gravados e acaba de concluir a gravação de seu novo DVD em Pirenópolis. Seu trabalho é voltado ao resgate da cultura brasileira. Pastoreia a Igreja Presbiteriana do Lago Norte, em Brasília, participa do conselho diretor da Mocidade Para Cristo e da diretoria nacional da Fraternidade Teológica Latino-Americana.
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