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17 de maio de 2010

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por Carol Gualberto

 

Preencher o campo "profissão" de um formulário, seja de um hotel, de um documento ou outro qualquer, é sempre um momento doído de reflexão pra mim.

Não foi sempre assim. Até meus 22 anos era fácil. A resposta estava na ponta dos dedos: "estudante". Mas assim que me formei a coisa complicou. Minha graduação foi em Dança, na Unicamp. Fiz o bacharelado e a licenciatura e me disseram que, a partir daquele momento, eu (e todos os graduados) era uma bailarina-pesquisadora-intérprete. Isso sem citar o "professora" por conta da licenciatura. Tudo ficou muito obscuro pra mim porque eu me sentia tudo isso e nada ao mesmo tempo. Pra complicar ainda mais, segui com meus estudos por mais 5 anos (especialização e mestrado) e voltei a ser, portanto, estudante. Paralelamente aos cursos, trabalhava como professora de dança, secretária e cantora. Aí é que a "vaca foi pro brejo!" Minha escolha ao preencher o tão temido campo era, portanto, variar. Ora, optava por "dançarina", ora por "professora"; quando não queria pensar muito, colocava "secretária" e quando tinha mais paciência, elaborava melhor a resposta, escrevendo algo parecido com "graduada em Dança" ou "professora de dança" ("Artista"? Jamais! Mas essa é outra história.).

Hoje a crise continua, mas com uma solução mais rápida. Trabalho na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ocupando o cargo de coreógrafa. Basta, portanto, escrever "servidora pública" e está tudo certo! Um alívio por alguns minutos!

"A questão é que a questão" maior permanece: qual lugar ocupo, afinal? Sou artista, dançarina, pesquisadora, cantora, escritora, coreógrafa, servidora. Dão-me muitos nomes, mas não sei qual me veste melhor. O fato é que não me reconheço em nenhum lugar e em muitos. E sei que esse sentimento não é só meu (o que me conforta em instantes como esse da reflexão e desabafo escrito).

Pois me vem à memória o tão conhecido Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci. Nele, apesar de haver um ponto fixo, seu centro gravitacional ou umbigo, tudo parece se mover, inclusive esse centro. A impressão é a de que não há ponto fixo e, sim, uma multiplicidade de pontos que podem ser focados e, na medida em que o são, acabam se fixando. São vários homens em um só; muitos movimentos e um centro i(móvel), numa deslumbrante e misteriosa variedade de homens possíveis. Tantos que, por muitas vezes, confundidos por nossa traiçoeira visão é difícil enxergar com clareza apenas um.

Pode ser viagem minha, mas percebo uma grande semelhança entre essa sensação ao ver o desenho de Da Vinci e o sentimento que há dentro de todos os artistas (quiçá, de todo ser humano): há muitos pontos, muitos lugares, muitos movimentos. Podemos "brincar", focando uns mais, outros menos. Há momentos pra todos esses lugares. Há lugar pra todas essas ações. Mas, quando tudo se "embola", quando a vista embaralha, há um ponto fixo, mesmo que por muitas vezes, ele quase não seja notado, ao se dissolver nos muitos espaços. Um ponto que une todos os outros pontos. Um ponto feito à imagem e semelhança do Criador.

(Re)descubro que o fato de não me reconhecer em nenhum lugar é, na verdade, um privilégio; revela as muitas possibilidades, as minhas muitas ações, as muitas facetas. Sou muitas! Sou várias! E quanta beleza há nisso! Mas se tudo se mistura e (me) confunde, há um ponto de ordem. Um pontinho quase imperceptível onde posso me reconhecer, onde me ver; onde não me entendo, mas onde sei que estou. Um ponto que se une ao Ponto - "É N'ele que nos movemos, vivemos e existimos", como canta meu amigo Stênio Marcius - pelo qual me movo e pelo qual sou tantas em uma. Tenho um nome. Isso basta.

Profissão? Já que me é permitido, vou deixar o espaço em branco, ou melhor, em aberto, bem aberto - pra caber um monte de mim...

 

Carol Gualberto é mestre em Literatura pela PUC-MG, especialista em Dança Contemporânea pela UFBA, bacharel e licenciada em Dança pela Unicamp. Mora em BH, é coreógrafa da UFMG e obreira da MPC Brasil (Mocidade Para Cristo).
É integrante do “Catavento – Dança & Pesquisa”.

 

Comentários
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Poliana  - Artigo   |189.59.137.21 |24-05-2010 14:40:19
Somos muitas... mas únicas para Ele!
Sonia Agreste  - Esta é minha Filha     |189.111.60.86 |26-06-2010 16:39:41
Na verdade, nossa identidade reside apenas no fato de sermos filhos de Deus e em Lhe trazer prazer. Nossos títulos são mera projeção de uma imagem, filtro para nossas relações interpessoais poderem
"dar certo".
Agora nós vemos em parte, mas haverá um tempo em que nos veremos completamente. Até lá, caminhamos...
Parabéns pela belíssima reflexão.
Juliana Martins Cassani  - Dúvidas   |187.59.234.20 |27-06-2010 12:38:59
Olá Carol, tenho muitas dúvidas a respeito da inserção de alguns estilos de dança na Igreja. Gostaria de saber se posso enviá-las por e-mail pra você...
Adans Jefferson  - Bravo!     |189.62.242.41 |10-08-2010 14:10:37
Simpesmente excelente!
Parabéns!
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Última Atualização ( 17 de maio de 2010 )
 
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