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Portal Cristianismo Criativo
Diretores de cinema estreantes, o publicitário Renato Terra e o jornalista e crítico cinematográfico Ricardo Calil se encontraram em 2005, quando foram trabalhar juntos no site iBest. Apreciadores de música brasileira, eles reconheceram suas afinidades e logo se viram envolvidos na realização do documentário, bastante modificado até o formato final. Renato atualmente coordena projetos de internet na revista Piauí. Ricardo, que também estudou Cinema em Nova York e já escreveu para a Gazeta Mercantil, Jornal da Tarde, revista Bravo e para o site NoMínimo, hoje é diretor de redação da revista Trip, crítico de cinema da Folha de S. Paulo e titular do blog Olha Só. Renato – Em 2003, eu estava me formando na faculdade e fiz a minha monografia sobre a Era dos Festivais. Já nesse momento, comecei a apresentar para o meu orientador a ideia de fazer um documentário, porque havia muito pouca informação sobre o tema. Mas aquilo não andou. Em 2005, convidei o Ricardo para entrar no projeto. A partir daí, a gente foi conversando com algumas pessoas, como o Nelson Motta e o Sérgio Cabral, e formatamos o projeto de fazer um filme só sobre o Festival de 67. Foi justamente naquele festival que aparece a semente do Tropicalismo, que Gil e Caetano romperam com a MPB tradicional, colocando as guitarras. Foi ali, com "Roda Viva", que Chico se despediu da imagem mais lírica que tinha com "A Banda" e partiu para algo mais denso. E foi também ali que o Edu chegou ao ápice recriando os ritmos do Nordeste – tudo isso com canções que se tornaram emblemáticas. Naquele Festival, surgiu uma MPB sofisticada e diversificada que perdura até hoje. Ricardo – Chegamos à conclusão de que se conseguíssemos falar bem sobre 67, conseguiríamos também falar sobre todo o período. Ou seja: aprofundando-se num tempo e espaço determinados, teríamos condição de iluminar toda a era dos Festivais. A gente já estava com algumas entrevistas de pesquisa feitas quando apresentou o projeto para o João Moreira Salles na Videofilmes. Ele gostou do enfoque e lembrou a frase de um documentarista: se você quer fazer um filme sobre o correio, você faz o filme sobre uma carta. E não foi só esse conselho que ele nos deu. Graças ao João, que topou fazer um filme na produtora dele com dois iniciantes desconhecidos, é que tivemos o privilégio de ter companheiros de jornada tão experientes e generosos quanto a Beth Accioly, o Jaques Cheuiche, a Valéria Ferro e a Jordana Berg, montadora, que ajudou muito a dar a cara do filme. Renato – Nós sabíamos que, sem imagens de arquivo, não existia filme. Então, ainda na fase de produção, fomos eu, o Ricardo e o [produtor executivo] Maurício [Andrade Ramos] para a TV Record. Eles entraram de parceiros no projeto com a Record Entretenimento e cederam as imagens. A gente deu muita sorte de ter registros muito fortes e descontraídos de bastidores, com o Randal Juliano, a Cidinha Campos e o Reali Júnior entrevistando todos aqueles nomes da MPB. Isso sem falar nas apresentações, ou então na cena da vaia do Sérgio Ricardo, que a gente resolveu botar inteira no filme. A ideia é que, com todas essas ferramentas tecnológicas de recuperação de som e imagem que a gente usou, a sala de cinema reproduza um pouco aquela estrutura do teatro da Record, com as pessoas sentadas diante daquele espetáculo que está acontecendo na frente delas. Fizemos um filme que não dá muitas respostas prontas, opiniões fechadas. A pessoa terá uma experiência. Não vai sair de lá sabendo de tudo, mas a gente aposta que ela se interessará por aquilo a partir do filme. Zuza Homem de Mello (consultor) – Jornalista, musicólogo, contrabaixista (estudou com a sumidade do jazz Ray Brown), produtor de shows e discos e curador do Free Jazz Festival e do Tim Festival, Zuza Homem de Mello é um dos nomes mais ativos do cenário musical brasileiro dos últimos 50 anos. Mas, no que tange aos festivais, seu papel é bem maior: fundamental. Além de engenheiro de som das transmissões da Record, ele é "o grande historiador dessa era e o autor do melhor livro sobre os festivais", como observa Ricardo Calil, referindo-se ao volume A Era dos Festivais - Uma Parábola (Editora 34, 2003). Consultor do filme, arregimentador (e condutor) de algumas das entrevistas, Zuza também comparece como entrevistado. Ele é uma daquelas testemunhas privilegiadas (se não a mais privilegiada) da batalha do Teatro Paramount. "Era nítido que aquele festival era diferente do de 1966", conta o produtor. "No mais antigo, havia duas músicas fortes: ‘Disparada’ e ‘A Banda’. No de 1967, qualquer uma das canções que ganhasse teria idêntica receptividade. Percebemos que a plateia estava a fim de destruir as músicas de que não gostava, muitas vezes por razões políticas. Era um tipo de fanatismo que nunca tínhamos visto em um festival". Zuza lembra que nem Roberto Carlos, então o Rei da Jovem Guarda, escapou dos humores do público: "Ali, ele foi vaiado pela primeira e última vez." Uma das inovações que o engenheiro de som trouxe para a transmissão dos festivais foi a de posicionar um microfone no teto do teatro, "para fazer chegar ao ouvinte em casa a sensação de que estava no festival". Em 1967, ele conta que teve que desligá-lo na vaia a Sérgio Ricardo. "O ruído da plateia era tão forte que chegou a encobrir a voz do cantor em seu próprio microfone!" A reação desse pacato cantor, quebrando seu violão e jogando-o ao público, foi, segundo Zuza, uma coisa nunca vista – e nunca repetida em festivais. E para tornar aquela final de 67 ainda mais singular, uma "mudança básica na história da música brasileira" se deu, de acordo com o produtor: compositores como Gil, Edu, Chico e Caetano resolvem deixar os consagrados intérpretes de lado e defender as próprias canções. A MPB nunca mais foi a mesma depois daquela noite. Fonte: Uma noite em 67
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