por Augusto Guedes
Depois de várias tentativas sem sucesso, mesmo através da internet, para adquirir o CD Livro "Somos Um" de Jorge Camargo, lançado há dois anos, ao visitar a recém inaugurada Livraria Cultura próxima de minha casa, parti na minha última tentativa. O livro é cadastrado, o que me possibilitou fazer uma encomenda, já que estava com estoque zero. Depois de uns 30 dias e após alguns avisos da livraria informando ter sido solicitado e pedindo para aguardar, recebi na minha caixa de e-mails o aviso de que havia chegado.
Meio ainda sem acreditar e após tanto tempo de garimpo, enfim coloquei as mãos naquela jóia rara. Por conhecer o Jorge, sabia não se tratar de um trabalho comum, o que já constatei ao ver o seu lay-out, tamanho e diagramação. Ao entrar no carro, resisti a tentação de colocar o CD para tocar. Não poderia ser ouvido com a possibilidade de dividir a atenção com o trânsito. Em meio ao corre-corre do dia a dia, com tantos compromissos inadiáveis, simplesmente guardei na gaveta da minha mesa de cabeceira até o sábado seguinte.
Era a manhã do dia da celebração do meu assumido aniversário de 50 anos, que havia sido no dia anterior. Aninha, minha esposa, resolveu ir ao cabeleireiro juntamente com as minhas filhas para se produzir para a festa da noite. Resolvi, então, me dar um presente muito especial. Desliguei todos os telefones que normalmente tocam de forma incessante pelo meu tipo de trabalho, fechei a porta do apartamento e liguei o som.
A doce voz que ouvira pela primeira vez e me chamara tanta atenção anos atrás cantando "o meu louvor é fruto do meu amor por ti Jesus..." invadiu novamente a sala de nossa casa. Logo lembrei de que naquele mesmo local, quinze anos antes, o Jorge, ao se hospedar por uma semana conosco, gravou numa fita cassete que ainda guardo mesmo sem ter onde ouvir, canções inéditas, algumas até hoje, e nos presenteou. Também lembrei de todas as brincadeiras que Aninha fez comigo ao recebê-lo, dentre elas, dizendo que as sandálias que ele me pediu emprestado seriam expostas num quadro de parede, além do meu violão que seria aposentado para que ninguém mais tocasse após a sua execução, tamanha já era a minha admiração por ele. Depois disso, foram tantos anos com tantos outros encontros em diferentes circunstâncias e locais. A voz continuava a ecoar...
Ao ler na ficha técnica do CD (que fica no livro) que os arranjos e produção, piano e teclados, eram do César Elbert, lembrei de que naquela mesma ocasião ele também esteve conosco por dois dias, juntamente com o Bomilcar para um show e curso pela MPC. Quantas boas lembranças pelo simples ouvir de uma voz. É que para mim, o trabalho musical do Jorge é daqueles que nos transportam para outro lugar, seja no passado, no presente, ou na esperança do futuro, que nos conectam a pessoa do Pai, promovendo experiências maravilhosas e, algumas, místicas.
Mais uma vez, em mãos, eu tinha algo realmente novo. Certamente não será um sucesso de vendas como também não o foi, por exemplo, o LP "De Vento em Popa" trinta anos atrás, mas com certeza aqueles que dele souberem desfrutar, estarão da mesma forma sendo marcados para sempre.
Ninguém melhor do que Jorge para desenvolver um trabalho que não apenas descreve com as letras, mas compõe, toca e canta com o coração, sobre alguns grandes místicos da história, homenageando-os, e nos transportando para as suas experiências na busca por Deus, através de "cartões postais poéticos" cheios de arte, e, ao mesmo tempo, com links interessantíssimos para letras de músicas dos nossos dias, bem como, para a sua própria experiência de busca, como se todos realmente fôssemos UM nessa mesma direção.
Assim, ele faz com Irineu, que viveu no século II, "ordenado bispo por João, o evangelista, também conhecido como discípulo do amor", e a música "Monte Castelo" de Renato Russo. Assim ele também faz com Agostinho, Pseudo-Dionísio, Anselmo da Cantuária, Francisco de Assis, João da Cruz, Teresa de Ávila e Thomas Merton, numa viagem inesquecível, que eu pessoalmente fiz naquela manhã, ao ouvir todo o CD, e, em seguida, novamente ouvi-lo em partes, após a leitura de cada um dos capítulos que traz consigo sempre com a letra de uma das canções.
Ao final da leitura, o sol ainda brilhava de forma intensa no céu azul da cidade de Fortaleza-CE, mas certamente eu o via de forma diferente, pois diferente estava o meu ser.
Que presente de aniversário! Bem que eu gostaria que o Jorge, como tantas outras pessoas importantes para a minha vida tivessem vindo, e ele veio!
No período da noite, lá estava eu com alguns grandes amigos de diferentes épocas da minha história, comendo e bebendo ao som de muita música brasileira, valorizando a vida, as amizades, o ser igreja, e também compartilhando... "fale de amor no espelho d’água de seus olhos, abra os portais do seu abraço, se for preciso, use palavras"...
Augusto Guedes, além de pastor, músico e empresário do ramo imobiliário, é fã declarado de Jorge Camargo,com quem desenvolveu uma amizade, embora reconheça que é mais abençoado por ele do que o abençoa, e este ano tornou-se um cinqüentão assumido.