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por Joêzer Mendonça Na interpretação contemporânea do cristianismo, a concepção da majestade de Deus tem perdido espaço para a noção de um Deus mais próximo da criatura, um Deus menos rei e mais companheiro de viagem. Em oposição ao antigo conceito da divindade inalcançável, cujo aspecto mais notório foi o monumentalismo das igrejas medievais e o cantochão em latim, passou-se a outra noção de Deus, em que o aspecto central não se nota no projeto arquitetônico das igrejas, mas na forma de adoração, que enfatiza uma extremada intimidade. Essa intimidade está baseada na compreensão do cristão moderno sobre o “amor” divino e humano. Podemos dizer que a interpretação sobre esse “amor” tem sido fundamentada menos na doutrina bíblica e no relacionamento Deus-criatura e mais no romantismo idealizado e no relacionamento homem-mulher. A Bíblia abre espaço para a representação do amor de Cristo pela igreja por meio da linguagem simbólica do romance: casamento, Noivo e noiva, noiva ataviada. Como forma de tratamento da divindade, pode-se usar também o referencial simbólico humano para o romance. Na música, isso é notado na proximidade melódica entre as baladas românticas e certas canções gospel. Desse modo, não estaria errado usar a linguagem humana do amor para retratar o relacionamento com Deus. De outro lado, a Bíblia concede espaço à representação romântica ideal (ou idealizada, diriam alguns), como nos Cânticos de Salomão, uma representação dos elementos passionais que envolvem um homem e uma mulher que se amam. Mas também apresenta o amor realista, como o relacionamento de Abraão e Sara. Portanto, onde Salomão poeticamente requer virtudes físicas e românticas, a história de Abraão e Sara indica que o amor requer compromisso e sacrifício. Qual tem sido o conteúdo das letras das canções cristãs contemporâneas sobre Deus? Qual seu sentido de “amor”? Poucos vão discordar de que, nas canções atuais, o amor sacrificial tem sido gradualmente substituído pelo amor idealizado. Uma das expressões mais usadas nos últimos anos é "apaixonado por Jesus". Embora a paixão seja um elemento indispensável à persistência do amor, o caráter ambíguo do termo "paixão" faz lembrar também romancezinhos de verão, casos de pouca duração. Até o termo “sacrifício”, que aponta para abdicação e serviço, no entendimento neocristão é pouco mais que abstinência de drogas ilícitas e de sexo pré-casamento dos novos conversos. Não apenas as canções gospel obedecem um percurso melódico identificado com as baladas românticas (prática que às vezes pode apresentar bonitas e marcantes canções, diga-se), mas as letras reforçam o que está patente na melodia (reforço elementar e até necessário, lembre-se). Problemas surgem quando a letra ressalta uma intimidade tão ambígua entre homem e divindade a ponto de confundir-se com o relato de uma paixão sensual comum. Os exemplos a seguir mostram que parte das canções sobre Deus e sobre Cristo usam termos e expressões romantizadas que dizem muito sobre a forma de adoração contemporânea, cuja linguagem mais coloquial relativiza a visão tradicional de Deus. “Apaixonado”, da cantora Aline Barros, é uma canção com referência nas alegres baladas das duplas sertanejas de sucesso. Embora a segunda estrofe da canção, ao mencionar rapidamente a morte de Cristo “naquela cruz”, explicite o motivo do adorador apaixonado, as expressões coloquiais me fazem perguntar se não está havendo uma confusão entre a Paixão de Cristo e a paixão romântica. Você mudou meu jeito de pensar Você mudou meu jeito de agir Me deu sentido Você está comigo Vinte e quatro horas, e ainda assim é muito pouco Apaixonado Apaixonado Apaixonado Por você Senhor estou Segundo Wolfgang Stefani, a música do movimento carismático indica que “o dramático e o sensual foram utilizados deliberadamente para criar uma experiência de envolvimento”. O avivamento musical evangélico, que parece intensificar as cargas de dramaticidade e de afetividade sensual (não-sexual), está bem presente nas cinco canções abaixo: “Amor Extravagante”, em que David Quinlan emprega termos pouco usuais na tradição da música cristã de representação do relacionamento Cristo-fiel, como “um lugar para dois” e “embriagante” – estaria ocorrendo no meio gospel uma radicalização das propostas litúrgico- musicais de Darlene Zschech, encontradas no livro Adoração Extravagante? O Seu amor é extravagante, E a Sua amizade, é tão íntima. (...) Sendo levado, por Tua graça estou E Tua fragrância, é embriagante quando contigo estou. O Seu amor é extravagante. (...) Um lugar para dois, só eu e Você Meu Amado e eu, só eu e Você. “Bate Forte Coração”, cantada por Sula Miranda, cujas canções lançadas após sua conversão denotam similaridade musical em relação às baladas sertanejas que fizeram seu sucesso secular: O meu amor é todo teu, você me conquistou. Quando os teus olhos invadiram os meus Meu coração não suportou Com o teu jeito todo especial Me fez abrir o coração (...) Bate forte coração Um lindo sentimento este amor produz Pra dizer nesta canção Que este amor é Jesus “Pra Sempre Te Amar”, em que Sula Miranda ressalta uma ambiguidade que torna o ser amado algo difuso, se a divindade ou um homem: Lembrar do teu rosto tão lindo Tua boca sorrindo Me dizendo, te amo (...) Te amo te quero Só em ti encontro prazer Teu amor mudou minha vida E trouxe alegria pro meu viver Alguns cancionistas gospel reconfiguram a terminologia bíblica noivo-noiva para uma relação que se aproxima da fantasia sensual-romântica, como na canção “O Noivo e a Noiva” (Quinta Gospel): Como o noivo e a noiva se amam, Eu te amo Senhor, Como o noivo e a noiva se abraçam, Eu te abraço Senhor Como o noivo e a noiva se tocam, Eu Te toco Senhor “Vem Minha Noiva”, do Ministério Casa de Davi: Meu lindo Noivo, Meu lindo Noivo, Vim Te encontrar, vim Te abraçar, Meu lindo Noivo, Meu lindo Jesus Se a compreensão de adoração extravagante dos ministérios de louvor tem sido, bem, extravagante, a literatura evangélica incentiva a ideia de intimidade com Deus com o uso de linguagem romântico-passional, como se nota no livro de Sam Himm, Beijando a Face de Deus: “Nunca perca a simplicidade de apenas apaixonar-se por Jesus e de simplesmente mandar um grande beijo para Ele” (p. 67). Da interpretação bíblica e profética de que "Deus é amor", os novos conversos são estimulados a dizer "Deus, meu amor". Em certo sentido, a expressão "apaixonado por Jesus" equivale a dizer "Jesus é dez!" ou "sou 100% Jesus". Não são expressões incorretas, mas traduzem o espírito de evangelismo desses tempos, em que a compreensão tradicional da santidade de Deus e de reverência é confundida com frieza e formalismo e busca-se substituí-la pelo emocionalismo da pseudointimidade. Joêzer Mendonça é músico e faz doutorado em musicologia na Unesp. É autor do blog Nota na Pauta, onde escreve sobre arte, mídia e religião.
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