As quatro cenas musicais - parte III PDF Imprimir E-mail
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15 de julho de 2011

Image por Sérgio Pereira


Nesta terceira e última parte, pretendo tecer algumas informações a respeito das cenas Adoração e Alternativa. Junto com a música Gospel, a cena de Adoração é uma das que possui maior alcance popular hoje (por isso, muitas vezes se confundem os dois termos), inclusive entre as denominações históricas. Estas também consomem seus produtos e os reproduzem nos momentos de louvor de seus cultos, gerando hoje várias discussões sobre este repertório continuar ou não a ser tocado em suas liturgias, uma vez que algumas destas letras vão contra o que é pregado nos púlpitos de origem histórica, como por exemplo, músicas que dialogam com a teologia da prosperidade, como é o caso da música Rompendo em fé:


ROMPENDO EM FÉ (Ana e Edson Feitosa)

[...] Se diante de mim, não se abrir o mar

Deus vai me fazer andar por sobre as águas
Rompendo em fé,
 minha vida se revestirá do Teu poder

Rompendo em fé,
 com ousadia vou mover o sobrenatural
Vou lutar e vencer, vou plantar e colher,
A cada dia vou viver rompendo em fé.
 
Fazer parte de uma gravadora era assinar seu nome junto a uma das cenas musicais mais visadas na época: a MPB Cristã se encontrava no selo Vencedores por Cristo e o Gospel na Gospel Records, MK Music, Line Records, Bom Pastor ou Graça Music.

No entanto, algumas igrejas passaram - ainda na década de 1980 - a produzir e a distribuir seus próprios trabalhos musicais de forma independente, com vistas a trabalharem composições para serem cantadas nos cultos evangélicos. Como exemplo temos a Comunidade da Graça, que gravou uma das músicas mais cantadas nos cultos nesta década: Nosso General. No início, chamada de “música de comunidade”, a partir dos anos 1990, tem seu nome alterado para “música de adoração”.


NOSSO GENERAL (Adhemar de Campos)

Pelo Senhor, marchamos sim

O seu exército poderoso é

Sua glória será vista em toda a terra [...]
O nosso general é Cristo

Seguimos os seus passos
Nenhum inimigo nos resistirá [...]
 
Em 1998, o ministério Diante do Trono, atrelado à Igreja Batista da Lagoinha (Belo Horizonte-MG), lançou seu primeiro disco e o sucesso de vendas deste trabalho alavancou diversos outros artistas e bandas neste estilo no Brasil. Uma das características da cena de Adoração era a distribuição independente de seus produtos. Hoje, vários destes grupos e ministérios entenderam que fazer parte dos conglomerados fonográficos é o melhor caminho para distribuir melhor seus produtos. Sony Music e Som Livre passaram a investir em duas cenas musicais: o Gospel e a Adoração (apesar de chamarem tudo de “Gospel”) e têm alcançado grandes cifras com a venda de CDs e outros produtos relacionados a estes artistas.

Boa parte das músicas da cena Adoração são no estilo rock pop inglês e geralmente suas letras têm a característica de serem escritas em formato “vertical”, ou seja, os compositores escrevem para serem cantadas não na pluralidade como igreja, mas, de forma individual, diretamente para Deus:


SENHOR, TE QUERO (Andy Park)

Eu te busco 
Te procuro, oh Deus
No silêncio Tu estás
Eu te busco, Toda hora espero em Ti, Revela-te a mim 

Conhecer-Te eu quero mais. 


Senhor, Te quero
Quero ouvir Tua voz
Senhor, te quero mais
Quero Tocar-Te
Tua face eu quero ver
Senhor Te quero mais.

 

Como quarta cena, temos a Música Cristã Alternativa. Predominantemente formada por bandas que atuam em nichos underground como o rock hardcore ou o death metal de bandas como Antidemon. Dificilmente estas bandas se apresentam em cultos (com exceção de denominações como a Caverna de Adulão, de Belo Horizonte e a Crash Church – antiga Zadoque -, de São Paulo) e eventos tradicionais evangélicos devido ao tipo de música, postura no palco, vestimentas e outros adereços pouco comuns aos protestantismos brasileiros convencionais.

No entanto, suas agendas estão carregadas de viagens todos os meses para diversos Estados brasileiros e países do mundo, demonstrando que a cena Alternativa possui muitos consumidores e fãs. São independentes ou ligados a selos relacionados aos nichos. O foco das suas letras é a evangelização e libertação de vícios:
 

DROGA (Antidemon)

[...] A noite era vazia, 
um tormento sem igual
Visões a me assolar, o diabo a avistar
O futuro era incerto, a droga me trazia

uma tristeza tão profunda, 
a morte eu queria

Droga!

Num lugar ouvi falar, 
que pra mim tinha saída
Só bastava eu aceitar
o perdão pra minha vida
Pois alguém levou na cruz
as tristezas da minha vida
Das drogas me tirou, 
hoje tenho nova vida! 


Vida é Jesus!


APOCALIPSE (Lucio Rodrigues – banda Skymetal)

Apocalipse

Morte, Dor, desespero,

Medo, sofrimento eterno,

Queima como lava no inferno,

É o que satã quer pra você.
Brigas, intrigas, destruição,

Demônios te atormentam,

Ódio, raiva, tentação
É o que satã quer pra você. [...]
 
Enfim, o intuito deste texto foi mostrar um leque maior do que aquele que geralmente se conhece como música cristã brasileira. Sim, há diversidade e criatividade na música produzida pelos cristãos evangélicos, espalhadas nas quatro cenas musicais. É também meu objetivo despertar outros pesquisadores para estudar de forma minuciosa a arte feita e consumida pelos evangélicos brasileiros, que hoje, mais do que nunca, faz parte da história cultural deste país.
 

Sérgio Pereira é músico, educador e escritor de materiais didáticos. Mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Faz parte do duo Baixo e Voz, que neste momento está produzindo seu 5º CD.

 

Comentários
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Renan Alencar de Carvalho     |186.204.94.69 |20-07-2011 20:00:07
Sérgio,

Existe um movimento crescente de bandas ou cantores cristãos que estão fazendo música para o público geral (não necessariamente cristão), falando de verdades da vida (com uma ótica cristã),
mas sem o formato e clichês evangélicos, como por exemplo, o som do Crombie, que tem letras carregadas de filosofia, mas sem mencionar diretamente Cristo ou textos bíblicos.

Você enxerga esse
movimento como parte do cenário alternativo, como um novo cenário, ou simplesmente não entra nesses 4 cenários por não ter um letra explicitamente cristã?
Sérgio Pereira   |189.47.200.236 |21-07-2011 13:10:33
Oi Renan. Com certeza os encaixo na cena alternativa, em especial pela característica das letras. Crombie e Palavrantiga (em algumas letras) são exemplos... Oficina G3 também, mas em outro sentido
musical, mais relacionado ao seu último CD (Depois da Guerra), onde o estilo metal os levou, de certa forma, para fora dos templos evangélicos.
Silvana Pinheiro Taets  - Ramificação da pesquisa     |177.17.89.24 |21-07-2011 13:29:09
Serjão, a partir de seus três textos com esse tema, fiquei pensando que outra linha interessante de pesquisa seria o paralelo da música chamada "gospel", com a música que é produzida por
nichos da igreja católica hoje. Fica a sugestão para novas aventuras...
Sérgio Pereira   |189.47.200.236 |22-07-2011 13:21:17
Oi Silvana, uma de minhas letristas favoritas...rs...

Muitos católicos (e boa parte da mídia) denominam a música feita por católicos também como "gospel". Sim, seria um estudo interessante
pois eles têm muito mais do que os padres-cantores para oferecer... Um detalhe interessante é que a Renovação Carismática consome boa parte da cena Adoração (composta pelos evangélicos) em seus
cultos, em especial, músicas do ministério Diante do Trono.

Em suma, o "gospel" tem se multifacetado e não cabe mais definições da década de 1980/1990 para ele nos dias de hoje.
Silvana Pinheiro Taets  - respondo:   |187.113.191.199 |22-07-2011 14:19:37
Valeu, Serjão. Acho que vc tem muito a contribuir com a discussão desses temas no Brasil. Legal suas reflexões, sem preconceitos e estereótipos.
Por falar em letrista (rsrsrs) e aquela letra que eu
mandei procês, se perdeu?
Bjo pra dupla.
JONATHAN   |187.114.150.226 |13-10-2011 22:30:05
Sérgio, fazer arte pra Deus está limitada a quê? Comunmente, as letras das músicas revelam se o artista é ou não "GOSPEL", na nomenclatura da mídia, no meu entendimento se está distante da
Bíblia não é mais para Deus, mesmo que a letra contenha centenas de nomes bíblicos ou de Deus, o o contrário também, mesmo sem citar nominalmente Deus, temos arte pra Deus quando falamos de suas
obras, da natureza, da condição humana, das cores, dos sons, dos cheiros... enfim... O que você pensa sobre isso, dentro das quatro cenas todas são Arte pra Deus, ou essa é outra classificação?
Sérgio Pereira  - ao Jonathan   |189.123.79.18 |15-10-2011 11:32:47
Se pensarmos que a arte é de Deus, não há limites. C. S. Lewis dizia que mesmo sem planejarmos, quando fazemos arte com excelência, estamos adorando o Criador. Complexo, mas real. Em Colossenses 1.16
está escrito que Ele criou todas as coisas para Ele ou por Seu intermédio. Toda arte é de Deus e o glorifica quando feita com criatividade e excelência, seja ela aos nossos olhos, digna ou não.

Não
há essa obrigatoriedade em utilizar a Bíblia diretamente nas letras das músicas para que elas tenham um teor cristão. Se fosse assim, o livro de Rute (que não tem a palavra Deus em nenhum texto) não
poderia estar na Bíblia.
Claudio Machado  - Muito Bom!   |200.166.104.165 |22-03-2012 14:24:04
Sergio, excelente panorama da música evangélica!

Semana que vem começo minha especialização, e hoje estava pensando em qual assunto irei estruturar meu futuro projeto de mestrado. A história da
música evangélica é um dos temas que estão na "final" da minha seleção de assuntos. Contudo, esse texto estruturou tão bem a nossa música que fiquei balançado a balizar meu estudo a partir do
panorama que você expôs!
Sérgio Pereira  - p/ Cláudio   |201.52.179.211 |24-03-2012 00:18:57
Oi Claudio.

O tema "música cristã no Brasil" é amplo e merece muitos estudos. Muitas vezes o pessoal trata do fenômeno "gospel" só a partir do viés econômico, o que é diminuir muito a
temática. A música feita por cristãos no Brasil merece estudos sobre identidade, história, a arte gráfica dos CDs/ DVDs, os espaços destinados a cada estilo musical, teologia da adoração nas letras,
estética artística entre vários outros...
Claudio  - P/ Sergio   |186.209.100.45 |24-03-2012 01:19:37
Concordo que o tema é bem amplo, carente de estudos aprofundados e registros bem documentados, por isso o interesse. Por enquanto vou analisando o melhor recorte para produzir algo que não sirva só
para a titulação, mas que também contribua para nosso desenvolvimento enquanto artista e cristão, dentro e fora do meio eclesiástico. Só ainda não sei qual a melhor contribuição que posso dar. Vou
tentar explicar-me melhor.
A especializacao que irei fazer é em gestao cultural, que está relacionada ao meu trabalho de elaboração de projetos para leis de incentivo. Contudo, você precisa ver como
faltam cristãos que se posicionem corretamente junto aos gestores culturais e à classe artística de um modo geral. Quando fui fazer a entrevista para a especialização, que esta sendo promovida pelo
MINC, a primeira pergunta que me fizeram foi: você é evangélico ( não havia colocado no currículo, mas pesquisaram na internet) , como você pretende trabalhar com cultura? Minha resposta foi que essa
ideia de subcultura cristã é nociva, e que a ótica dele estava equivocada, pois a arte produzida dentro da igreja não deixa de ser arte, e nem a verdade dita por um não cristão deixa de ser verdade.
Após isso, o que ouvi foi: "que bom se todo crente pensasse assim"
Outro local em que precisei me posicionar foi junto ao fórum nacional de música. No inicio deste ano, quando a presidente
sancionou uma lei reconhecendo o gospel como manifestação cultural, a postagem mais leve dizia: " já não bastam essas igrejas não pagarem imposto nenhum, ainda querem usar o dinheiro da lei de
incentivo para alienar o povo". Diante disso, contra argumentei relatando os apoios, via lei rouanet, para a paixão de Cristo de nova Jerusalém, ao mosteiro de são Bento e aos povos de terreiro no
maranhão, e que nao havia problema em apoia-los, ou apóia-se a todos, ou a nenhum! coloquei também a realidade que o musico cristão passa, que para produzir seu cd, por exemplo, encontra as mesmas
barreiras que o não cristão, e que em grande parte não recebe nenhum subsidio das igrejas para tanto, e dentre mais alguns argumentos. Ao final, ao ver que o que disse foi aceito em ambos os casos, e
ainda tendo recebido elogios por tais posicionamentos, vi que ali estou sendo luz, mas me sinto só, pois sei que muitos outros artistas cristãos poderiam estar presentes também, não para defenderem a
música cristã, num ato separatista, mas para se posicionarem em relação à classe artística, as políticas publicas e outros assuntos que rolam no fórum, por exemplo. Depois desse relato/desabafo,
espero encontrar alguns de vocês lá, garanto que farão muito mais diferença lá do que dentro de suas redomas eclesiásticas...
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Última Atualização ( 18 de março de 2012 )
 
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