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por Sérgio Pereira
Nesta terceira e última parte, pretendo tecer algumas informações a respeito das cenas Adoração e Alternativa. Junto com a música Gospel, a cena de Adoração é uma das que possui maior alcance popular hoje (por isso, muitas vezes se confundem os dois termos), inclusive entre as denominações históricas. Estas também consomem seus produtos e os reproduzem nos momentos de louvor de seus cultos, gerando hoje várias discussões sobre este repertório continuar ou não a ser tocado em suas liturgias, uma vez que algumas destas letras vão contra o que é pregado nos púlpitos de origem histórica, como por exemplo, músicas que dialogam com a teologia da prosperidade, como é o caso da música Rompendo em fé:
ROMPENDO EM FÉ (Ana e Edson Feitosa)
[...] Se diante de mim, não se abrir o mar
Deus vai me fazer andar por sobre as águas Rompendo em fé,
minha vida se revestirá do Teu poder
Rompendo em fé,
com ousadia vou mover o sobrenatural Vou lutar e vencer, vou plantar e colher, A cada dia vou viver rompendo em fé. Fazer parte de uma gravadora era assinar seu nome junto a uma das cenas musicais mais visadas na época: a MPB Cristã se encontrava no selo Vencedores por Cristo e o Gospel na Gospel Records, MK Music, Line Records, Bom Pastor ou Graça Music. No entanto, algumas igrejas passaram - ainda na década de 1980 - a produzir e a distribuir seus próprios trabalhos musicais de forma independente, com vistas a trabalharem composições para serem cantadas nos cultos evangélicos. Como exemplo temos a Comunidade da Graça, que gravou uma das músicas mais cantadas nos cultos nesta década: Nosso General. No início, chamada de “música de comunidade”, a partir dos anos 1990, tem seu nome alterado para “música de adoração”. NOSSO GENERAL (Adhemar de Campos)
Pelo Senhor, marchamos sim
O seu exército poderoso é
Sua glória será vista em toda a terra [...] O nosso general é Cristo
Seguimos os seus passos
Nenhum inimigo nos resistirá [...] Em 1998, o ministério Diante do Trono, atrelado à Igreja Batista da Lagoinha (Belo Horizonte-MG), lançou seu primeiro disco e o sucesso de vendas deste trabalho alavancou diversos outros artistas e bandas neste estilo no Brasil. Uma das características da cena de Adoração era a distribuição independente de seus produtos. Hoje, vários destes grupos e ministérios entenderam que fazer parte dos conglomerados fonográficos é o melhor caminho para distribuir melhor seus produtos. Sony Music e Som Livre passaram a investir em duas cenas musicais: o Gospel e a Adoração (apesar de chamarem tudo de “Gospel”) e têm alcançado grandes cifras com a venda de CDs e outros produtos relacionados a estes artistas. Boa parte das músicas da cena Adoração são no estilo rock pop inglês e geralmente suas letras têm a característica de serem escritas em formato “vertical”, ou seja, os compositores escrevem para serem cantadas não na pluralidade como igreja, mas, de forma individual, diretamente para Deus: SENHOR, TE QUERO (Andy Park)
Eu te busco
Te procuro, oh Deus No silêncio Tu estás Eu te busco, Toda hora espero em Ti, Revela-te a mim
Conhecer-Te eu quero mais.
Senhor, Te quero Quero ouvir Tua voz Senhor, te quero mais Quero Tocar-Te Tua face eu quero ver Senhor Te quero mais. Como quarta cena, temos a Música Cristã Alternativa. Predominantemente formada por bandas que atuam em nichos underground como o rock hardcore ou o death metal de bandas como Antidemon. Dificilmente estas bandas se apresentam em cultos (com exceção de denominações como a Caverna de Adulão, de Belo Horizonte e a Crash Church – antiga Zadoque -, de São Paulo) e eventos tradicionais evangélicos devido ao tipo de música, postura no palco, vestimentas e outros adereços pouco comuns aos protestantismos brasileiros convencionais. No entanto, suas agendas estão carregadas de viagens todos os meses para diversos Estados brasileiros e países do mundo, demonstrando que a cena Alternativa possui muitos consumidores e fãs. São independentes ou ligados a selos relacionados aos nichos. O foco das suas letras é a evangelização e libertação de vícios: DROGA (Antidemon) [...] A noite era vazia,
um tormento sem igual Visões a me assolar, o diabo a avistar O futuro era incerto, a droga me trazia
uma tristeza tão profunda,
a morte eu queria Droga! Num lugar ouvi falar,
que pra mim tinha saída Só bastava eu aceitar
o perdão pra minha vida Pois alguém levou na cruz
as tristezas da minha vida Das drogas me tirou,
hoje tenho nova vida!
Vida é Jesus! APOCALIPSE (Lucio Rodrigues – banda Skymetal)
Apocalipse Morte, Dor, desespero,
Medo, sofrimento eterno,
Queima como lava no inferno,
É o que satã quer pra você. Brigas, intrigas, destruição,
Demônios te atormentam,
Ódio, raiva, tentação É o que satã quer pra você. [...] Enfim, o intuito deste texto foi mostrar um leque maior do que aquele que geralmente se conhece como música cristã brasileira. Sim, há diversidade e criatividade na música produzida pelos cristãos evangélicos, espalhadas nas quatro cenas musicais. É também meu objetivo despertar outros pesquisadores para estudar de forma minuciosa a arte feita e consumida pelos evangélicos brasileiros, que hoje, mais do que nunca, faz parte da história cultural deste país. Sérgio Pereira é músico, educador e escritor de materiais didáticos. Mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Faz parte do duo Baixo e Voz, que neste momento está produzindo seu 5º CD.
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