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por Taís Machado
John Stott era um homem que tinha consciência de seu tempo e a Palavra de Deus impregnada em seu ser. Tinha um coração pastoral enorme, que sabia ouvir os gemidos contemporâneos de uma sociedade confusa. Sua capacidade de ler os movimentos, acolher pessoas, compreender a humanidade, aprofundar conceitos, traduzir contextos, alertar para tendências e perigos era algo extraordinário.
Nove décadas de vida, sendo a maior parte delas entregue ao ensino, ao discernimento das gerações atuais. Desde 1992, por exemplo, insistia publica e enfaticamente no fato de que “se somos de fato servos de Jesus Cristo, nossos olhos (à semelhança dos olhos de Jesus) precisam estar sempre abertos para a necessidade humana e os nossos ouvidos atentos aos gritos de angústia. Assim, tal como Jesus, poderemos reagir de maneira construtiva e compassiva diante do sofrimento do povo”1.
Aponta também, ainda no desenvolvimento de tal pensamento, que “a busca por transcendência é a busca pela realidade suprema, que se encontra além do universo material. É um protesto contra a secularização, isto é, contra a tentativa de eliminar Deus do seu próprio mundo. É um reconhecimento de que os seres humanos ‘não vivem só de pão’, pois o materialismo não pode satisfazer o espírito humano”2.
O legado que ele nos deixa é um tesouro e seu exemplo deve permanecer em nossa memória. Os desafios de ouvir o Espírito de Deus e não negligenciar o que o mundo nos diz é fundamental. Aliás, ouvir bem o Espírito Santo é, em certa medida, ser levado a ouvir mais atentamente o que se passa ao nosso redor, desenvolver uma audição de qualidade em relação à nossa geração. O Espírito de Deus nos convence do erro do mundo3, mas acredito que em parte ele o faz contando com nossa contribuição – disciplina e disposição em ouvir os gritos e as falas mansas e sutis desse mundo. Dias antes da morte de John Stott estava lendo um artigo no jornal e lembrei-me dele. Aproveito, em seguida, para repartir o que encontrei.
Melody Moezzi é uma escritora iranoamericana e ativista. Em artigo recente ela traz informações e reflexões interessantes a respeito dessa tríade arte-sociedade e espiritualidade. Vejam só: “O ‘líder espiritual’ do Irã oficialmente reconhecido hoje pode ser o aiatolá Khomeini, mas, durante centenas de anos anteriores ao establishment atual de mulás e aiatolás, os iranianos de todos os credos reconheceram outro líder espiritual: Jalal ad-Din Rumi. Entre os iranianos, ele é o guia espiritual e guru cujas palavras encerram autoridade moral inigualada. Hoje, mais de 700 anos após sua morte, é quase impossível passar um dia caminhando por qualquer cidade, subúrbio ou vilarejo iraniano sem ouvir seu eco. Suas palavras sobrevivem no discurso cotidiano - não importa sua posição na vida, religião ou ocupação, todas as pessoas no Irã conhecem pelo menos um punhado dos poemas de Rumi de cor. Não existe melhor maneira de compreender essa influência que por meio da própria poesia de Rumi”. E cita um trecho de um de seus poemas: “Hoje, como em todos os outros dias, acordamos vazios e temerosos. Não abra a porta para o estudo e comece a ler. Busque um instrumento musical. Permita que a beleza que amamos seja o que fazemos. Existem centenas de maneiras de ajoelhar e beijar o chão”. E ao final conclui dizendo: “Como iranianos jovens, vemos o fracasso do governo em garantir direitos iguais para as mulheres e percebemos que o regime esqueceu suas raízes. Nossos líderes vêm recorrendo a cassetetes, a balas e a gás lacrimogêneo. A consequência é que as pessoas continuam a se afastar da religião organizada, especialmente do islã, porque viram como o regime manipula sua fé para oprimir a população e reprimir a dissensão. Essa crescente repulsa coletiva à religião, contudo, encoraja a união de iranianos de todas as origens e crenças, sob os ensinamentos espirituais mais básicos e universais que Rumi e outros poetas sufistas captaram com tanto brilho: a noção de que a música, a arte, a poesia e o amor constituem nossos maiores recursos espirituais. No Irã, tais recursos são mais abundantes que óleo, açafrão e pistaches reunidos e representam a fé mais verdadeira das massas”4.
Ouvir implica em não disparar imediatamente críticas, no caso, ao Irã e ao islã. Antes destacar apontamentos que são feitos, na busca sincera em compreender pontos de vista diferentes. Sobretudo, me chama a atenção por agora, como se enfatiza a respeito da “noção de que a música, a arte, a poesia e o amor constituem nossos maiores recursos espirituais”. E ao que me parece, tal noção é pequena e negligenciada por boa parte dos cristãos ainda hoje em dia.
O professor do departamento de história da arte da Universidade Livre de Amsterdã, Hans Rookmaaker, comentava veementemente que a arte certamente tem muita influência sobre as pessoas e nos desafia a “pensarmos bem em nossa posição cristã e no que significa o cristianismo em todos os níveis da vida humana” referindo-se à nossa fraca reflexão no que se refere aos artistas e às artes. E ele é direto e claro ao colocar que “pregar o evangelho e dizer que em Cristo há vida sem ser capaz de mostrar algo da realidade dessa vida é falar ao vento. Logo começa a soar falso. "[...] Pense no papel do rock nos anos 60. Se naquela época houvesse música cristã criativa, estimulante e boa, se houvesse arte visual que fosse verdadeiramente diferente, não estranha, mas boa, o Cristianismo teria mais a dizer. Ele teria mais a dizer ao mundo fora do ocidente, ao Terceiro Mundo. Com frequência nos damos por satisfeitos cedo demais. Pegamos o que o mundo faz, mudamos as coisas óbvias e pensamos que é suficiente”. Depois lembra-nos que “ser cristão não é ser conservador ou apático”. Pondera também que “os artistas não necessitam de justificativa. Deus os chamou e lhes deu talentos. Não podemos prosseguir sem eles”5.
Paul Tillich, por sua vez, dizia que “nenhuma expressão artística é possível sem a forma racional criativa, mas a forma, mesmo em seu maior refinamento, é vazia se não expressa uma substância espiritual”6. Temos, portanto, investido tempo em observar, apreciar e desfrutar as substâncias espirituais expressas na arte? Do professor de Direito que quase foi, o pintor Kandinsky, dotado de antenas de excepcional sensibilidade, em 1910, em Munique/Alemanha, dizia que “toda obra é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos”, e acrescenta, “cada época de uma civilização cria uma arte que lhe é própria”. Ele dizia sobre como as expressões artísticas são fruto do “Princípio da Necessidade Interior”, lembrando-nos que “a época inteira quer reproduzir-se, exprimir sua vida pela arte”. E complementava que “quando a religião, a ciência e a moral são abaladas, e quando os apoios exteriores ameaçam ruir, o homem desvia seu olhar das contingências exteriores e dirige-o para si mesmo”7. Cabe-nos, assim, avaliarmos se efetivamente temos ouvidos e percebido as necessidades interiores e o que elas expressam.
Aí volto ao Stott que dizia sobre a tríplice busca em que estão engajados os seres humanos: “Ao buscarem transcendência, eles estão tentando encontrar a Deus; ao buscarem um significado na vida, estão tentando encontrar a si mesmos; e ao buscarem uma comunidade, estão tentando encontrar o próximo”8. Os que se encontram com e em Cristo podem no viver saborear e promover novos encontros de tantos buscantes. Podem ouvi-los, pois também já foram ouvidos. Podem exercitar-se na humilde e respeitosa escuta, acolhendo gemidos e traduzindo angústias, aprendendo e se reconhecendo em vários momentos. Que o discernimento nos acompanhe. Taís Machado é psicóloga e docente no Seminário Servos de Cristo.
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